domingo, 23 de maio de 2010

A formação crítico-social do aluno: sem preconceitos


Historicamente, as disciplinas de Filosofia e Sociologia tem sido defendida pelos educadores como fundamentais na construção da cidadania dos indivíduos. A reinserção destas disciplinas no ensino médio é reflexo dessa luta e os resultados que colheremos amanhã dependerá dos envolvimentos e empenhos neste importante processo de resgate.


Nos discursos que costumanos ouvir dos interessados neste campo do saber, fala-se muito em criticidade. Mas aí  pergunto: o que é ser crítico? Seria a criticidade apenas um exercício reflexivo ou um resultado da democracia e liberdade de expressão? Como compreender as diretrizes da criticidade sem ser arbitrário ou doutrinário? Veja que podemos traçar vários conceitos de criticidade: pensamento crítico, espírito crítico, atitude crítica, análise crítica, senso crítico, sujeito crítico, etc.

Somos seres pensantes, temos convicções, valores e crenças. A partir dessas especificidades, cada um de nós temos uma visão de vida e de mundo que nem sempre se assemelha às ideologias de nosso próximo. O que fazer? Que relações permitir? Como conviver? De que forma essa tão importante criticidade nos tornará sujeitos tolerantes ao alheio ou diferente, propiciando uma sociedade mais justa e igualitária? Estamos abertos às mudanças? Aceitamos o desconhecido? Respeitamos as diferenças? Se não conseguimos uma resposta, no mínimo, condizente com o que é melhor para nós e para todos, como podemos  exercer o nosso papel de educador munidos de um saber científico e veicular o conhecimento desprendido do senso-comum e consciente de que,  para o ensino destas ciências, tais considerações se tornam imprescindíveis para que a prática docente se torne precisa e coerente?

Penso que todo educador deveria ser livre de preconceitos e os educadores de Filosofia e Sociologia mais ainda. Nada mais é desagradável que um filósofo ou sociológo ser racista, homofóbico e intolerante em outros aspectos que envolve a existência de um outro que por ser diferente, é discriminado e rotulado como um ser inferior e fora dos padrões impostos socialmente.

Penso que o educador deve despir-se de “verdades absolutas”, pois é o primeiro passo para estabelecer objetivos e estratégias que possam ir ao encontro das reais necessidades de nossos educandos, considerando-os como sujeitos reais e não como seres por nós idealizados. E volto a dizer que isso só acontece quando estamos livres de preconceitos, o que se torna um problema, pois não somos perfeitos e nem sempre estamos dispostos a tirar o nosso “casaco da moralidade” e pensar com mais flexibilidade sobre o que realmente é ser moralmente sociável.



Dessa forma, só uma educação voltada para a formação do pensamento crítico pode contribuir para a libertação e autonomia do sujeito. E alerto para que antes de realmente descobrir o que é ser crítico, sejamos cientes também que algo importante pode se aprender quando nos colocamos no lugar do criticado.

Saindo um pouco desta ótica, quero citar Nietzche, filósofo alemão, que em uma de suas obras, nos conduz a uma reflexão sobre o fato de educar com o instinto da águia, pois é uma ave que alça vôos sobre o perigo, sondando a realidade e buscando o melhor meio de encarar essa realidade de frente, e recusar a prática que educa para o instinto da tartaruga, que esconde a cabeça ao sinal de perigo, para nada ver, nada ouvir, nada sentir. O cidadão tartaruga é mais fácil de manipular e é o tipo de cidadão que a classe dominante gostaria que a escola reproduzisse.

Jamais podemos permitir que nossa prática docente compactue com essa realidade, reproduzindo os interesses e as ideologias das classes dominantes. Devemos promover em nossos educandos uma formação humana, ética e política, e não um alienado. Esse é o desafio de todos os educadores, que ensinem na perspectiva de desenvolver gerações de águias, geração essa que tem a coragem de contestar com firmeza as indiferenças sociais e criar soluções alternativas para uma vida melhor.

sábado, 10 de abril de 2010

Educação em Roraima: estranheza, contradição e hipocrisia

Deu no Jornal: Denúncias apontam irregularidades em reforma de escola estadual; Falta de professor revolta pais e alunos; Ventilador cai na cabeça de aluna; Falta material e professor em escolas estaduais; Pais reclamam de transporte escolar; Estudantes do interior sentam no chão por falta de carteiras; Alunos voltam às aulas sem fardamentos; Escolas recebem alunos sem carteiras; Alunos estudam em escolas precárias; Merenda escolar: alunos reclamam de suco estragado na escola; Telhado da quadra esportiva ameaça desabar; (...).

Estranho, muito estranho! Não é essa a Educação das propagandas do governo, das carinhas felizes embaladas pelas ilusões de que em Roraima o ensino público vai bem, que há gente reclamando de barriga cheia, gente incoerente, gente intransigente.

Não é essa a Educação dos sorrisos pueris, do canto que entoa “Acelera, Roraima!”, do aluno que senta no chão, da merenda que a criança só come porque tem fome, do suor que escorre pelas faces sofridas em meio ao calor infernal, do vento que alivia e ao mesmo tempo aterroriza ameaçando cair sobre a cabeça... Não é essa a realidade que aflige a terra de Macunaima.

Contradição, muita contradição! Afinal, a Educação é a que se prega ou a que se vê? É a que se oferece nos discursos e propagandas milagrosas ou a que é tratada com descaso e desvios de recursos velados em gabinetes? É a que nada falta e tudo tem ou a que nada tem e tudo falta? É a das personagens com sorriso artificial nas propagandas “Acelera, Roraima!” ou a da realidade que entristece a criança que mais parece ser educada por esmolas e não por recursos a que tem direito?

Hipocrisia, quanta hipocrisia! Hipócrita é aquele que vocifera nos púlpitos e tribunas contra os professores, por alegar que a sua luta é somente por salário. Hipócrita é o professor que diz que está tudo bem porque lhe basta o salário. É aquele que não enxerga e ilude os seus ouvidos porque lhe convém.

É muito mais cômodo julgar a luta de uma classe dentro de gabinetes, criticar um movimento quando se está acomodado no sofá da sala, reprovar o protesto de trabalhadores quando não se está no lugar deles, chamar professores de vagabundos quando não se reconhece a sua importância para a sociedade... E assim a sociedade continua sem educação de qualidade, educação que instrui, que liberta, braço forte de um Estado desenvolvido. E assim o povo continua sujeito ao engodo, objeto de manipulação daqueles que fazem de sua função a plena prioridade de trabalhar segundo os seus interesses, daqueles que lesgilam em causa própria.

Parabéns a todas as classes trabalhadoras, a cada trabalhador que luta pela sua valorização, por condições dignas de trabalho, parabéns aos que se libertaram do comodismo que vicia, que levantam a bandeira do desenvolvimento desse Estado, mais justo e realmente solidário, mesmo enfrentando quem tem em mãos a oportunidade de fazer Roraima avançar, não nas propagandas fora da realidade, mas na vida de cada cidadão roraimense.

* Artigo de minha autoria publicado no Jornal Folha de Boa Vista

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Os erros nossos de cada dia


Diz um ditado que errar é humano. Uma propaganda do Conselho Nacional de Justiça diz que ajudar quem erra é mais humano ainda. Frases feitas, de efeito, são muito usadas no dia a dia. Com elas resumimos o que pensamos, torna-se mais prático usá-las e não há quem não conheça uma variedade de ditados populares.

De tanto assistir à propaganda do CNJ, percebi que ela tem um contexto intrigante, e por tratar-se de um assunto envolvido de preconceitos, faz com que as pessoas repensem a sua resistência contra os erros dos outros, ainda mais daqueles que pagou por eles.

Por que não estender a mão a quem precisa de uma chance? Por que não empregar um ex-detento? Concordo integralmente com a propaganda, afinal, a dívida (o erro) foi paga, o sujeito reintegrou-se à sociedade e tem direito às mesmas oportunidades como qualquer um.

Mas esse não é o contexto intrigante da propaganda. Ela mostra o sujeito que passou a ser livre tem duas escolhas: o trabalho ou a volta ao crime. Duas escolhas totalmente opostas, conflitantes, como se optar por uma delas livrasse a pessoa da outra.

Mais que isso, coloca o fator desemprego como uma causa da criminalidade, como se não ter trabalho fosse pretexto para se tornar um ladrão ou homicida. Pensando assim, parece que, embora com duas escolhas, o homem tem a liberdade cerceada, prisioneiro da dura realidade que aflige milhares de pessoas desempregadas do nosso país.

Nesse aspecto, a liberdade custa caro, porque exige do indivíduo o que nem todos tem: honra e  bom caráter. É por isso que muitos que saem da cadeia voltam a cometer crimes, porque não sabem ser honestos no momento em que mais precisam, lição exemplar que não vem de nenhum parlamentar ou executivo, mas dos moradores de rua, dos catadores de lixo e até de quem vive de esmolas, pois preferem encarar diariamente a vida dura, comer o pão que o diabo amassou – a roubar, a tirar a vida do próximo, por achar-se na liberdade de tomar para si o que o outro conseguiu, às vezes, com muito sacrifício e suor.

Em um mundo onde nem sempre vemos uma mão estendida para quem batalha por acertos, parece ilusão querer que a sociedade ajude quem erra. Enquanto falamos sobre o erro, devemos também nos lembrar daqueles que tiveram os seus sonhos ceifados, os seus direitos de acertar interrompidos por aqueles que, fruto de sua própria ignorância, sequer pensou sobre a conseqüência de seus atos. Quando vejo certas atrocidades como uma recente em que o ex-marido descarregou o revolver na ex-mulher em seu trabalho, na frente de suas clientes, é preciso corrigir o ditado popular, porque em casos como esse, errar é desumano!

Meu objetivo não é criticar a propaganda. Mas quanto àqueles que não resistem a errar, que tenham a maturidade para enfrentar as conseqüências, quando esta lhe faltou em sua plena liberdade de acertar. Somos humanos e qualquer um é sujeito ao erro, aprendemos com eles e até evoluímos. Quem é do bem, aprende a lição e quem é mal, não há ajuda que o conserte. E se é bom alguém nos estender a mão quando erramos, melhor ainda é nunca precisar dela.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Políticos e corrupção: um espelho da nossa sociedade?


Não importa o lugar e o ambiente, pode ser numa roda de amigos em mesa de bar ou numa reunião social, quando o assunto é política não há quem não alfineta político A ou B, sempre há alguém que reclama, critica e até faz uma relação nominal dos políticos “ficha-suja”, descreve com precisão o que cada um fez, o que roubou e ainda explica porque tudo termina em pizza.

Realmente. A televisão, os jornais, a internet, os meios de comunicação estão ao alcance de todos. Só não se informa ou não se instrui politicamente quem não quer. E essa história de falar mal dos políticos é coisa antiga, nos cartoons ou revistas de piadas eles são estereotipados, rotulados, quase nunca são honestos, comprometidos com a ética e a moral.

Essa é a nossa cultura, o senso comum que vê na política brasileira adjetivos que reprovamos e repudiamos como se nós, eleitores, fôssemos de caráter exemplar, isentos de corrupção, jamais conivente com esse tipo de prática, afinal, é assim que tem que (ou deveria) ser.

Todavia, não é o que diz uma pesquisa do Ibope realizado no mês de março de 2009. A pesquisa revela que a maioria dos entrevistados (75%) declarou que faria a mesma coisa se estivesse no poder. Contradição?  Não, meu prezado leitor, é um convite à reflexão sobre os políticos que nos representam no poder e à relação de suas ações com que fazemos enquanto indivíduos na sociedade.

Ora, se alguém comete pequenas ilicitudes no dia a dia, transgride normas sociais, não pensa duas vezes em se dar bem em detrimento do outro, o que faria se fosse um político? Então pergunto: O homem se corrompe pelo poder ou o poder é mero pretexto para justificar a sua corrupção? Quem é essencialmente íntegro, um sujeito de princípios, se corrompe também só porque se tornou um político?

Eu ainda não era eleitor quando conheci um prefeito de uma cidade onde morei. Até hoje, quando ouço falar dele, citam exemplos de sua dignidade e bom caráter. Não comprou terras, não multiplicou o gado, continuou com o mesmo carro velho, o mesmo endereço. Só que nunca mais ganhou uma eleição porque não tinha dinheiro para comprar os votos dos eleitores corruptos, que segundo a pesquisa supracitada, não são poucos. Parafraseando o nosso governador, uma vez ouvi o ex-prefeito dizer que não ganhava mais nem para vereador. Da sua história, fica a certeza que todo bom político tem que ter ao seu lado bons eleitores.

Então, prezado leitor, se reclamar da corrupção no país não é novidade, devemos refletir se não estamos agindo com hipocrisia. Que tipo de eleitor você é: eleitor vítima ou eleitor cúmplice? Só vamos mudar realmente esse cenário quando cada um de nós evoluirmos nossa prática humana com base nas virtudes, e não nos vícios, com vontade de transformar escolhendo o que é certo, e não sendo conivente com o que está errado. Conscientize-se, discuta, reflita e vote!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Os desafios da família na educação dos filhos


Nos tempos atuais, é muito comum ouvir comentários e debates sobre a família, sua função social e sua atual conjuntura. Célula fundamental da sociedade e insubstituível, questiona-se sua participação na educação dos filhos e sua formação enquanto ser social.

Que família temos e que família queremos? O que é família? Considerada a mais antiga instituição social, é o fundamento básico e universal da sociedade, pois possibilita um conjunto de regras de acordo com a sua cultura e oferece padrões de conduta que orienta o indivíduo em sua relações sociais. Teoricamente, é isso mesmo. Todavia, ao analisar as mudanças pelas quais a estrutura familiar vem passando, essa concepção tão objetiva caminha para um novo conceito, bem diferente e mais complexo que o papel social que a família exercia na Idade Média e Era Moderna.

Distintamente, nos deparamos com profundas transformações que influenciaram e ainda influenciam a funcionalidade familiar. E aí pergunto: Os pais estão preparados para essas mudanças? Eles estão proporcionando aos filhos, através de regras, valores, orientação – um melhor desenvolvimento para a vida e convívio social? Ou estão deixando essa imprescindível tarefa para outras instituições sociais como as escolas, igrejas, projetos culturais, etc.?

Hoje, vivemos numa sociedade altamente tecnológica e a família repassa à criança aquilo que a sua realidade oferece, socialização que pode ser organizada ou não se desenvolver gerando uma relação conflituosa e, às vezes, decadente. Os desafios com os quais a família de hoje se depara é reflexo dessa dinâmica histórica e social existente.

Não dá mais para educar um filho como fomos educados pelos nossos pais há décadas atrás. Os pais precisam entender que o que para eles se tornou estabelecido, o modo como foram educados no contexto familiar, em grande parte, é objeto de crítica pelos filhos, pois a realidade é outra e as fórmulas do passado são naturalmente incompreendidas, ou seja, a criação tradicional não tem mais o mesmo efeito.

Além do mais, a estrutura familiar está diversa. Famílias com pais separados, o declínio da autoridade marital ou paterna, o aumento das relações sexuais fora do casamento, o baixo capital cultural, a presença da mulher no mercado de trabalho, a acentuação do individualismo e da liberdade da família, o declínio na conduta religiosa no lar, entre outros, são fatores que promovem uma nova (des)organização familiar responsáveis por essas mudanças. As transformações na sociedade contemporânea, a mudança de valores e liberalização de hábitos e costumes estão desencadeando um processo de fragilização dos vínculos familiares, o que torna a relação entre pais e filhos mais vulnerável.

A verdade é que o modelo de família está em crise. Serão os nossos filhos vítimas dessa pluralidade que configura a flexibilidade da estrutura familiar da sociedade pós-moderna? O que estamos ensinando a eles? É possível transmitir valores dentro de uma sociedade que mais exige do que possibilita? Uma certeza tenho: não se deve temer o desafio do presente na educação dos filhos, pois dessa forma, além de promover os pilares constituinte de uma família, teremos no futuro adultos mais conscientes de seu papel na sociedade e de sua contribuição por um mundo melhor.