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quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Por uma educação sem preconceito - contemplando as diversidades


O preconceito está na maldade dos olhos de quem vê e na ignorância de quem acha que sempre está com a razão. (Leo Cruz)

“... daqui a pouco vão querer que a gente aceite o homossexualismo / antes não era assim, hoje o homossexualismo parece uma praga”. Ouvi essas palavras de dois professores durante o intervalo, momento em que muitos se reúnem para se descontrair enquanto tomam um cafezinho em meio às risadas e discussões aleatórias. Eu, sempre tido como um observador, às vezes me pego refletindo sobre comentários e opiniões de colegas, como estes acima, que nos levam a pensar não somente sobre o papel do educador, mas também sobre sua visão de vida e de mundo.

No contexto atual, que defendemos uma educação voltada verdadeiramente para todos, não podemos fugir das questões relacionadas à exclusão e discriminação ainda presentes na escola. Se o professor em maior ou menor grau desenvolve práticas excludentes ou discriminatórias quando deveria olhar com mais atenção para a questão da tolerância com o “diferente”, como exercer o papel de educador, desenvolver ações formativas pautadas em valores e condutas, fomentar a inclusão e o respeito à diversidade dentro de uma visão cercada de estereótipos socialmente aceitos e por esses mestres defendidos?

Palavras soltas no momento do intervalo certamente seriam ignoradas por muitos, mas são em momentos como esse que mostramos quem realmente somos e como nossos pensamentos retratam nossos valores e atitudes. Considerar os homossexuais uma praga e dizer que somos obrigados a aceitá-los não é somente preconceito e falta de informação, é também pensar sobre como o ensino e aprendizagem se processa e de que modo se reflete na formação dos alunos.
Recentemente, a professora autora de uma das frases realizou uma feira de história e geografia com o tema “contemplando as diversidades das nações”. Qualquer pessoa que entender o sentido amplo do termo “contemplando as diversidades” deve perceber que o professor que estigmatiza mediante o seu conhecimento unilateral de mundo pode até saber sobre a pluralidade de povos, costumes, crenças e valores, mas não como verdadeiramente contemplá-los.

Poderia falar aqui de outros preconceitos já ouvidos em momentos de intervalos, mas este me chamou a atenção pela sutileza da circunstância e pela dimensão que toma no campo das idéias. Basta imaginar esses professores opinando a partir de suas “verdades absolutas” e vestidos do casaco da moralidade, confundindo aceitação com respeito, maior visibilidade com praga. Certamente, não quero que minha filha de 11 anos seja aluna de professores assim.

Ainda que seja uma crítica aos colegas, entendo esse artigo como uma reflexão. Um educador munido de preconceitos, sejam eles quais for, é um perigo para uma escola que tem um ideal de cultura de paz e que promove a igualdade e o respeito por meio da diversidade. Não dá pra concordar com um professor que elege certos padrões culturais como a única, ideal e verdadeira a ser seguido pela sociedade. A escola é um lugar privilegiado onde podemos plantar a semente do respeito, da tolerância com o outro mediante a heterogeneidade da sociedade. De fato, algumas sementes estão nascendo. Não vamos permitir que o preconceito, essa erva daninha, sufoque nossas esperanças. 
(Leonilton Cruz)

sábado, 4 de junho de 2011

Homossexualidade versus Família e Escola

Recentemente, uma polêmica dividiu opiniões sobre a distribuição de um material produzido pelo MEC às escolas, que tratava da homossexualidade. Conhecido como “kit-gay”, o material recebeu duras críticas de diversos segmentos sociais, principalmente de evangélicos e conservadores. Depois de reprovado, ficou a ideia de que falar sobre a sexualidade é dever da família, a quem compete quando e como tratar desse assunto tão delicado. Mas será mesmo que os pais sabem lidar com sexualidade dos filhos?

Na verdade, dizer que educação sexual é papel da família fica apenas no papel. Ainda ontem, falar de sexo com os pais era tabu, hoje não mais? Estranha-me agora que eles queiram assumir essa responsabilidade. O preconceito contra os homossexuais é um dos mais fortes da nossa sociedade e a família é uma das que mais contribui para a produção e reprodução desse preconceito, então como podemos querer que nossos filhos cresçam com uma educação pautada no respeito à diversidade, sem discriminação e homofobia?

Desde cedo, é comum os filhos aprender a linguagem do preconceito que, conscientemente ou inconscientemente, gera atitudes nem sempre favoráveis a uma (in)formação livre de discriminação. Quando a afetividade dos filhos envolve a homossexualidade, o problema se amplia. Em geral, nenhum pai quer um filho “gay” ou “lésbica”, o que torna a família um nicho da reprodução de preconceitos que envolvem a sexualidade. Para isso, os discursos vão de Adão e Eva à procriação humana, valendo-se de valores culturais, sociais e históricos, sujeitos de convenções sociais instituídas e dominantes.

Com o conflito, mesmo que pais e filhos tentem conviver, o mal-estar dentro de casa acaba ficando pior que o fora dela. Então, tendem a ter ações e atitudes que geram graves conseqüências, principalmente psicológicas, pois nem todos conseguem superar a falta de apoio da família. Sem generalizar, ainda que os filhos não sejam vítimas da violência física ou psicológica, é comum ver na família pais e filhos tomados pela angústia de não poder falar, compartilhar seus anseios e sentimentos, sobre o que se é como homem ou como mulher sem estereótipos, por causa dos preconceitos reproduzidos lar afora.

Penso que a escola deve sim, inserir educação sexual em seu currículo. Não de forma impositiva, como pareceu o “kit-gay”,  mas através de um processo que envolva também a família. Que os pais saibam o que os filhos estão aprendendo e que participem também dessa educação. É na escola que os filhos interagem, conhecem os outros e se conhecem. Não há como fugir das trocas sociais que naturalmente acontecem no contexto escolar. Todas as informações recebidas pelo aluno são trazidas para dentro da escola, a sexualidade se manifesta no comportamento deles, na escola ou fora dela. É função da escola combater o preconceito e rever conceitos distorcidos.

Enquanto isso ficar apenas no discurso, a falta de informação e o preconceito vai continuar. Quem os pais eduquem, mas também que a escola compreenda a sua importância nesse processo. Acima de tudo, que trabalhem nas futuras gerações a valorização humana, que tolera e respeita as diferenças, despidos de “verdades absolutas” e livres daquilo que hoje, infelizmente, estamos presos. 

domingo, 29 de novembro de 2009

Escola e Homofobia



Um dos melhores artigos que já li sobre como trabalhar a homossexualidade na escola, da revista Pátio Pedagógica. Alías, essa revista é excelente e quem trabalha na área de educação não deve deixar de lê-la.

É fundamental trabalhar para que a escola não reproduza ou amplie situações de desamparo e hostilidade a que muitas lébicas, gays, bissexuais ou transexuais estão submetidos em seu ambiente familiar, em sua comunidade e em outros espaços.


A homofobia na escola é um problema real. Seu enfrentamento requer estratégias específicas voltadas a garantir tanto o avanço da agenda dos direitos sexuais quanto o reconhecimento da diversidade sexual e da pluralidade das expressões de gênero. Nesse espaço, é preciso confrontar crenças e valores que alimentam os preconceitos heteroxissistas e a hostilidade homofóbica, pois pedagogias que reiteram as lógicas da "heterossexualização compulsória" prejudicam a formação de todas as pessoas.

Emprego a noção de diversidade sexual para me reportar às temáticas diferentes à população Lébiscas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Trangêneros (LGBT) e às dissidências em relação às "normas de gênero". A categoria LGBT não é usada aqui a partir de pressupostos essencialistas ou fomentadores de classificações ou exclusões. Eu a considero uma categoria política, dotada de dinâmicas e tensões, passível de contínuas reconfigurações.

A homofobia costuma ser vista como um conjunto de emoções negativas (aversão, desprezo, ódio, desconfiança, desconforto ou medo) em relação a homossexuais ou mais concretamente, a lésbicas, gays, bissexuais, travestis ou transexuais. Na verdade, a homofobia transcende sentimentos individuais: trata-se de preconceito, discriminação e violência contra pessoas cuja orientação sexual (orientação do desejo sexual), identidades ou expressões de gênero (identificação dos sujeitos com configurações de masculinidade ou de feminilidade) não se conformam com a heteronormatividade, ou seja, valores, normas e dispositivos por meio dos quais a heterossexualidade é instituída como a única forma legítima e natural de expressão identitária e sexual. Nesse sentido, as práticas sexuais não reprodutivas são vistas como desvio, crime, aberração, doença, perversão, imoralidade ou pecado.


Espaço crucial na construção de sujeitos e subjetividades sintonizados com a heteronormatividade, a escola desempenha um papel central na produção e na reprodução da homofobia. Nela, a homofobia é consentida e ensinada (Louro, 1999) em rotinas de constantes ofensas, constrangimentos, ameaças, intimidação, moléstias, humilhações, tormentas, marginalização e exclusão.

Segundo pesquisa da Unesco (2004), cerca de 60% dos professores brasileiros consideram inadmissível uma pessoa ter relações homossexuais. mais de 21%¨não gostaria de ter vizinhos homossexuais. Outra pesquisa constatou um alto percentual de docentes que afirmam não saber abordar a homossexualidade nas aulas (quase 48% em Vitória) e que consideram a homossexualidade uma doença (mais de 20% em Manaus e Fortaleza). Entre os pais, 60% não desejariam que seus filhos tivesses colegas homossexuais. Entre os estudantes, muitos não gostariam de ter colegas homossexuais (mais de 44% em Maceió e Vitória) e "bater em homossexuais" foi apontado como o exemplo menos grave de violência (Abramovay et al., 2004).

Pesquisas realizadas nas paradas LGBT de São Paulo, Rio de Janeiro, belo Horizonte, Porto Alegre, Recife  e Manaus apontam a escola como o primeiro ou segundo pior espaço de manifestação homofóbica. Em 2004, no Rio, 40,4% dos jovens entrevistados disseram ter sido discriminados na escola (Carrara e Ramos, 2005). Uma recente pesquisa da Fundação Perseu Abramo indica que as pessoas LGBT são um dos principais alvos de ódio e aversão social na Brasil (Venturi, 2009).

Na escola, a homofobia incide no padrão das relações sociais entre alunos e professores; afeta o bem-estar subjetivo; dificulta o aprendizado; afeta as expectativas de alunos e professores quanto ao "sucesso" e o rendimento escolar; produz intimidação, insegurança e falta de autoconfiança; promove estigmatização, segregação e isolamento; gera desinteresse; produz ou agrava a distorção idade-série; favorece o abandono e a evasão escolar; desencadeia tendências de se evitar contextos que apresentam potencial discriminatório; reduz oportunidades e prejudica o processo de inserção no mercado de trabalho; enseja invisibilidade ou visibilidade distorcida das pessoas; conduz à maior vulnerabilidade em relação a chantagens, assédios, abusos, DSTs e AIDS; tulmutua o processo de configuração identitária e a construção do respeito de si; influencia a vida social em geral; dificulta a integração das famílias homoparentais na comunidade escolar, etc.

Revista Pátio Pedagógica, Ano XIII, Maio/Julho 2009, nº 50