As cantigas trovadorescas surgiram na Idade Média entre os séculos XII e XIII, como as primeiras manifestações literárias portuguesas. Essas cantigas tinham entre seus objetivos examinar as tensões políticas e sociais das sociedades medievais através da prática e poesia dos trovadores galego-portugueses. A partir daí, foram desenvolvidos gêneros que traduzissem as mais diversas formas de expressões da sociedade da época, desde o alto clero até o camponês, enlaçando-os a diferentes categorias sociais como produtores do discurso. Essas cantigas eram classificadas em Cantigas de amigo, Cantigas de amor, Cantigas de escárnio e Cantigas de Maldizer.
A cantiga de Escárnio, que será analisada neste trabalho, é um gênero da poesia da Idade Média cuja função é criticar, satirizar uma pessoa real, próxima ou do mesmo círculo social do trovador. Utiliza sátiras indiretas para atingir a pessoa satirizada. Faz-se o uso de ironias e expressões de duplo sentido, e o objeto de escárnio nunca é identificado.
Deste modo, o presente trabalho visa ressaltar a importância das cantigas de escárnio como um produto linguístico que também marcou a fase inicial documentada do português, além representar os costumes e vícios inseridos na sociedade medieval pelas grandes questões da época.
As cantigas de Escárnio, assim como os outros tipos de cantigas, foram escritas em galego-português no período chamado Trovadorismo (séculos XII e XIII) da Idade Média.
As cantigas de Escárnio tem como principal característica a crítica indireta, ou seja, normalmente a pessoa satirizada não é identificada. Há uma preocupação com a linguagem, pois é cheia de sutilezas, trocadilhos e ambigüidades, dotados de ironia. Apresenta grande interesse histórico, pois são verdadeiros relatos dos costumes e vícios, principalmente da corte, mas também dos próprios jograis e menestréis. Nas cantigas de escárnio, o poeta exprime, ironicamente, o satirizado, abstendo-se de citá-lo diretamente. Tendo como objetivo a crítica social, com tom humorístico, ridiculariza as pessoas de forma sutil ou grosseira, denunciando os falsos valores morais vigentes e atingindo todas as classes sociais: senhores feudais, clérigos, povo e até eles próprios.
Principais características das cantigas de escárnio:
--> Cantigas satíricas escritas em linguagem bem mais vulgar;
--> Sempre zombavam de alguém, seja uma pessoa decadente, seja alguém que passou por um problema amoroso, seja uma mulher namoradeira;
--> Linguagem mais velada, menos direta, não individualizada a pessoa criticada;
--> Discurso produzido com sujeito em 1ª ou 3ª pessoa (não identificada);
--> Possui artifícios lingüísticos e literários como a ironia e a hipérbole;
--> Apresenta-se como uma sátira indireta, sarcástica, zombeteira e de linguagem ambígua.
Como toda cantiga de escárnio, há nos textos uma relação entre poesia e poder, onde desenvolve-se, de certa forma, uma guerra de representações, utilizando-se das produções como como espaço para esse tipo de embate. Segundo fontes da internet, o gênero satírico iniciou-se com a participação ativa de mestres e estudantes, que debatiam diante de grande platéia, sobre questões previamente estabelecidas, surgindo assim o chamado gênero trovadoresco das “tenções”, cuja forma básica era constituída de uma alternância de estrofes entre os dois trovadores que participavam do confronto lírico.
Através das tenções, os trovadores galego-portugueses podiam se enfrentar diretamente. Mas podiam também atingir um terceiro, não presente na disputa, que fosse referido direta ou indiretamente. Por exemplo, a pretexto de criticar o oponente, podia-se na verdade encaminhar uma crítica a um outro, o que caracterizava uma verdadeira “tenção de ricochete”. Além disso, existia ainda aquilo que poderíamos chamar “tenções simuladas” em que dois trovadores podiam “tençoar”, mas na verdade a pretexto de falar mal de um terceiro, ou de um tipo social. As tenções completam com as cantigas de escárnio e maldizer a principal tríade de gêneros satíricos explorados pelo trovadorismo ibérico entre os séculos XVIII e XV.
Era comum nestas arenas trovadorescas ibéricas, as cantigas de escárnio e de mal dizer que podiam ter como alvo até mesmo o rei, o que demonstra a relativa liberalidade dos paços trovadorescos. Este é o caso da cantiga abaixo, movida pelo fidalgo Gil Peres Conde contra o rei Afonso X de Castela, que também era, aliás, um dos mais hábeis trovadores:
“Os vossos meus maravedis, senhor,
que eu non ôuvi, que servi melhor
ou tan ben come outr'a que os dan,
ei-os d'aver enquant'eu vivo for,
ou a mia mort', ou quando mi os daran?
A vossa mia soldada, senhor Rei,
que eu servi e serv'e servirei,
com'outro quen quer a que dan ben,
ei-a d'aver enquant' a viver ei,
ou a mia mort', ou que mi faran en?
Os vossos meus dinheiros, senhor, non
pud'eu aver, pero servidos son,
Come outros, que os an de servir,
ei-os d'aver mentr'eu viver, ou pon-
mi-os a mia mort' o a que os vou pedir?
Ca passou temp' e trastempados son,
ouve an'e dia e quero-m' en partir.”
(Gil Pérez Conde, CBN 1523)
Características da cantiga de escárnio nesta poesia:
--> Sátira em relação ao serviços prestados e não pagos pelo rei;
--> Jogo com o uso duplo dos pronomes possessivos “vossos” e “meus”;
--> Confronto de idéias através da expressão;
--> Ambiguidade acompanhada de entonação irônica;
--> Invocação indireta ao conjunto de instituições do vassalo;
--> Embate de caráter político entre a parte nobre do reino e o serviçal.
http://www.repom.ufsc.br
http://www.wikipedia.com
http://www.uel.br/cch/pos/letras/terraroxa
http://www.docs.google.com
História da Literatura Portuguesa (?)