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segunda-feira, 29 de outubro de 2012

A Crítica Social e a Linguagem em Vidas Secas


A CRÍTICA SOCIAL E A LINGUAGEM EM VIDAS SECAS*
*Leonilto Manoel da Cruz, Licenciatura em Letras, UFRR

INTRODUÇÃO

            O presente trabalho vem abordar dois temas bastante presente no romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos: A crítica social e a linguagem. Publicado em 1938, a obra narra a vida de uma família de retirantes, marcada por dificuldades advindas da natureza e da opressão do homem, onde o contexto pode ser relacionado com os dias atuais nas diversas óticas temáticas que compõem o romance, como estes que fazem parte da análise.

            Como crítica social, a análise nos leva a perceber como o autor trabalha as personagens e busca explorar paralelamente, a dimensão individual e social de cada uma, de modo que o resultado acaba por problematizar as questões sociais em um tom crítico e denunciativo. A fome, a falta de moradia, a opressão do patrão e do Governo são elementos que atingem Fabiano e sua família que, desamparados no campo social e discursivo, nos faz entender que o autor contempla, de certo modo, muitos Fabianos existentes no Brasil cheio de contrastes e marcado pela desigualdade social.

            A falta de comunicação entre Fabiano, a mulher e os dois filhos nos revela que secas não são somente a vida das personagens, mas também as palavras. A linguagem, ideologicamente compreendida como instrumento de libertação do homem e essencialmente social, não faz parte do cotidiano retratado em Vidas Secas. A ausência do discurso se reflete nas relações entre as personagens e suas ações, onde a comunicação se situa no mesmo nível dos bichos, num processo de animalização. Na análise, podemos perceber que a linguagem é utilizada como arma de opressão sobre Fabiano e sua família, contribuindo para a condição do ser oprimido e marginalizado.
  
A CRÍTICA SOCIAL EM VIDAS SECAS
            
Publicado na década de 30, o contexto histórico do romance Vidas Secas traz uma ótica pautada no subdesenvolvimento social e econômico brasileiro. A ficção regionalista se aproxima da realidade e dá um tom de visão crítica do ponto de vista social. Através do regionalismo e a seca do nordeste, a realidade socioeconômica e as relações de poder, o romance nos faz perceber que fatores como estes transformam o homem, adequando-o a sua realidade (seca, miséria, exploração).
           
            Para Hirato e Cícero (2009, p5), o Modernismo Brasileiro, por estar vinculado ao desenvolvimento da economia capitalista, teve grande efervescência na década de 20 e 30.

“Este, por sua vez, trouxe consigo um momento  de intenso questionamento sobre a realidade social brasileira, tendo o Movimento Modernista logrado combinar com elementos estéticos (ligados às modificações operadas na linguagem) aos elementos ideológicos (diretamente atada ao pensamento, à visão de mundo)”.

Sob esta ótica, os autores observam que a realidade vivida por Fabiano, sua mulher, seus filhos e a cachorra Baleia, não mostra apenas as dificuldades de uma família diante da seca e a opressão geográfica. Expõe o desamparo social e um Nordeste decadente, as injustiças sofridas pelas camadas menos favorecidas e oprimida pela miséria e o descaso político. Segundo Rosa (2002, apud Victor Coelho, 2008), além do desamparo social (acesso a moradia, saúde, educação, segurança) está o desamparo discursivo (formação de valores e ideais), fato que dificulta o sujeito de posicionar-se e ter voz nas relações de poder e contribui mais ainda para o processo de exclusão social. Para a autora, isto “perpetua e submete os sujeitos ao discurso social dominante, promovendo sua adesão aos fundamentos da organização social que lhes atribui lugares marginais”. Desse modo, Victor Coelho (2008) observa que “a hierarquia social é reforçada pela manutenção da violência simbólica”.

Nesse contexto, a obra de Graciliano Ramos nos permite aproximar da visão política do escritor. Em 1936, foi preso acusado por conta de seu envolvimento político. Entra para o Partido Comunista Brasileiro em 1945 e visita União Soviética e outros países socialista em 1952. Isto explica porque “Vidas Secas” possui uma abordagem marxista em seu contexto político-social. O contato que o autor teve com a filosofia marxista nos faz entender porque o autor expõe sua preocupação com a realidade social no Brasil e se posiciona politicamente na produção literária, exercendo um papel de denúncia e de crítica social, características do Neorrealismo. Nesta época, O Brasil vivia a era Vargas, período de transformações sociais e econômicas.

Segundo Hess et al (2005, p.2),

a região em que a crise da sociedade colonial do início do século XX se delineava com mais propriedade era o Nordeste. As tendências modernizadoras e de transformação do país encontravam nessa região obstáculos mais concretos; ali se frustraram as esperanças de uma renovação democrática, como apontou Carlos Nelson Coutinho: “na medida que aí as contradições eram mais ‘clássicas’ (no sentido de Marx), o Nordeste era a região mais típica do Brasil, a sua crise expressando – em toda sua crueza e evidência – a crise de todo o País


Os anos que se sucederam após a I Guerra Mundial provocou profundas mudanças no cenário político entre os países. Com a crise de 1929 dos Estados Unidos, entraram em decadência as oligarquias cafeeiras, fato que fortaleceu o poder do Estado. As transformações econômicas e sociais foram notáveis na Era Vargas, mas a centralização do poder na região sudeste criou dois contrates: o desenvolvimento industrial e a desigualdade social, como a seca e a miséria. É nesse contexto que Graciliano Ramos, alimentado pelos ideais marxistas, assume uma postura de denunciador dos problemas sociais.

Segundo Palermo e Carbonel (2008 p.6), a partir do engajamento com as questões sociais, essa característica baseia-se

na tensão de um “eu” (metonímia do povo, porém ainda assim individualizado) e o mundo (sertão) que não se resolve, uma vez que o drama desse “existir” depende necessariamente da solução de questões mais amplas: a luta de classes, a opressão capitalista, a animalização do homem pelo próprio homem (expressão sociológica da crueldade humana intrínseca).

                Para estes autores, “o foco, definitivamente é a problematização e a discussão da questão social”. Sendo assim, a história de uma família brasileira diante de um cenário de seca e miséria assume uma dimensão maior e passar a representar todos os brasileiros que vivem em semelhante condição. É como afirmam Hirato e Cícero (2009, p5): “Fabiano deixa de ser um personagem fictício e regional”.

            Em Vidas Secas, a opressão não vinha apenas das condições naturais. Fabiano é um nômade, ele não era dono de terras, não tinha propriedade, mas sua andança não se deve apenas à seca.A sua condição de miséria e opressão decorre da grande propriedade, bem como, entre outros fatores, da política de irrigação favorável às classes dominantes. É o capital enquanto relação social que gera e aprofunda a miséria” (HIRATO e CÍCERO, 2009, p7). Fabiano vivencia a opressão do homem através da relação de poder, que se faz presente em vários capítulos da narrativa. No capítulo 10 – Contas, vemos que a permanência na fazenda foi negociada mediante a exploração.

Fabiano recebia na partilha a quarta parte dos bezerros e a terça dos cabritos. Mas como não tinha roça e apenas se limitava a semear na vazante uns punhados de feijão e milho, comia da feira, desfazia-se dos animais, não chegava a ferrar um bezerro ou assinar a orelha de um cabrito.
Se pudesse economizar durante alguns meses, levantaria a cabeça. Forjara planos. Tolice, quem é do chão não se trepa. Consumidos os legumes, roídas as espigas de milho, recorria a gaveta do amo, cedia por preço baixo o produto das sortes. Resmungava, rezingava, numa aflição, tentando espichar os recursos minguados, engasgava-se, engolia em seco. Transigindo com outro, não seria roubado tão descaradamente. Mas receava ser expulso da fazenda. E rendia-se. Aceitava o cobre e ouvia conselhos. Era bom pensar no futuro, criar juízo. Ficava de boca aberta, vermelho, o pescoço inchando. De repente estourava:
 - Conversa. Dinheiro anda num cavalo e ninguém pode viver sem comer. Quem é do chão não se trepa.
Pouco a pouco o ferro do proprietário queimava os bichos de Fabiano. E quando não tinha mais nada para vender, o sertanejo endividava-se. Ao chegar a partilha, estava encalacrado, e na hora das contas davam-lhe uma ninharia.

            Fabiano era um sem terra e para manter-se na casa da fazenda, foi submetido à exploração pelo latifundiário, a quem se refere como um homem “arreliado, exigente e ladrão, espinhoso como um pé de mandacaru” (Capítulo 2 – Fabiano). Melo (2005, p.382) observa que a humilhação e o abandono a que a família sofria, animalizando-os, fortalecia-se por meio do Estado, representado pelo soldado amarelo (cor que simbolizava o Estado). Para a autora, no capítulo “Cadeia”, “o Governo e a lei punham-se em evidência somente para demonstrar o lugar insignificante em que homens como Fabiano se encontravam”. Através do soldado, vemos presente a opressão exercida pelo Estado, a quem o homem deve se sujeitar. No Capítulo 11 – O soldado amarelo, Fabiano tem a chance de se vingar daquele que o colocara na cadeia injustamente. Neste trecho, percebemos que mesmo com o desejo de vingança, tomou consciência de que o soldado amarelo, como ele, era um coitado que recebia ordens de um poder instituído e sendo assim, de nada adiantaria matá-lo, a opressão não deixaria de existir.

Aprumou-se, fixou os olhos nos olhos do policia, que se desviaram. Um homem. Besteira pensar que ia ficar murcho o resto da vida. Estava acabado? Não estava. Mas para que suprimir aquele doente que bambeava e só queria ir para baixo? Inutilizar-se por causa de uma fraqueza fardada que vadiava na feira e insultava os pobres! Não se inutilizava, não valia a pena inutilizar-se. Guardava a sua força.


            Essa consciência das relações de poder fica evidente quando Fabiano pensa “governo é governo” e tira o chapéu de couro, curva-se e ensina o caminho ao soldado amarelo. Isto não significa apenas humildade, vemos aqui um sinal de obediência e submissão aos superiores por meio de costumes.  No Capítulo 7 – O mundo coberto de penas, ao lembrar-se do encontro, pensa que se tivesse matado o soldado, estaria preso, mas seria um homem respeitado. - Fabiano, meu filho, tem coragem. Tem vergonha, Fabiano. Mata o soldado amarelo. Os soldados amarelos são uns desgraçados que precisam morrer. Mata o soldado amarelo e os que mandam nele”.   

            Ao ensinar o caminho ao soldado amarelo ao invés de matá-lo, Fabiano não estava evitando apenas sua prisão. Estava também evitando a prisão de sua mulher e seus filhos, que ficariam vulneráveis, sem a sua proteção, como mostra esse trecho do Capítulo 3 – Cadeia: “Pobre de sinhá Vitória, inquieta sossegando os meninos. Baleia vigiando, perto da trempe. Se não fossem eles... (...) o que o segurava era a família”. Segundo Victor Coelho (2008), “parece que Graciliano Ramos quer um destino diferente para a família de Retirantes. O conhecimento sociológico da época, assim como o marxismo, já diziam que a eliminação de um indivíduo não implica as alterações estruturais e nas relações sociais”.

            Por ser preso injustamente, Fabiano não se convencia de que o soldado amarelo representasse o governo: “Governo, coisa distante e perfeita, não podia errar. O soldado amarelo estava ali perto, alem da grade, era fraco e ruim, jogava na esteira com os matutos e provocava-os depois. O governo não devia consentir tão grande safadeza” (Capítulo 3 – Cadeia). Nessa concepção, Fabiano idealiza um governo justo, representado por pessoas honestas, não pelo soldado amarelo, que se beneficia do poder para abusar dos menos favorecidos e marginalizados.

            Outro momento em que Fabiano entra em contato com o governo acontece no capítulo 10 – Contas, quando surge o fiscal da prefeitura para cobrar imposto da venda de um porco que matara.  E aqui Venturotti (2008, p.4) traz uma reflexão: “o que realmente significaria para o sertanejo, isolado no mundo e sem os devidos recursos do Governo, os impostos obrigados a pagar?” Silva (2001, p.17) observa que a pior adversidade de Fabiano vem do meio social.

O Soldado Amarelo corrupto, oportunista e medroso, que subjuga os demais por compreender-se como a força da lei; o dono da fazenda exigente, ladrão e opressor; o fiscal da prefeitura intolerante e explorador só espelham os desmandos sociais dentro dos quais se perdem Fabiano e sua família. Esses personagens, caracterizados como ricos proprietários e opressores, não têm necessidade de fugir das secas. É justamente esta a preocupação paralela de Graciliano Ramos, denunciar a desigualdade entre os homens, a opressão social, a injustiça. Em momento algum o esmagamento de Fabiano e sua família é explicando apenas pela seca ou qualquer fator geográfico.


A LINGUAGEM EM VIDAS SECAS

            Diante de tamanha opressão, Fabiano não se sentia dono de sua própria linguagem. Sendo a linguagem um dos fatores fundamentais para que o homem se insira na sociedade, esta lhe era subtraída diante da exploração vivida.

            Durante a Era Vargas, o Integralismo ganhou força no Brasil. As ideias integralistas eram bem recebidas pelas camadas médias urbanas e intelectuais da época, passando a representar um dos mais importantes movimentos no cenário político da década de 30. Sua filosofia se caracterizava principalmente pelo nacionalismo e defesa da hierarquia social. Segundo Arraes (2011, p.50), “Vargas estava atento ao fato de que a linguagem, sob o viés da cultura, poderia ser uma estratégia de controlar e unificar os brasileiros”. E isto Vargas fez bem. Controlava a cultura por meio da censura, criou o ministério da Saúde, Educação e Trabalho e governou o país sendo populista e centralizador. Em relação a educação, Arraes afirma que o Governo, “ao mesmo tempo que reconhecia as necessidades populares, cedendo a algumas pressões, desenvolvia uma política de massa que procurava manipular essas necessidades, transformando a educação em uma forma de controle e difusão da ideologia oficial (idem, p. 52).

            No contexto internacional, Getúlio Vargas queria passar a imagem de um país de riquezas naturais, em amplo desenvolvimento socioeconômico, a que a autora chama de “exaltação ufanista”. Como contraste estava a pobreza do sertão, não importadas pelas canções que divulgavam um Brasil sem a  realidade da seca, da miséria e exploração.

            É nesse contexto que Graciliano Ramos, imbuído dos ideais marxistas, escreve o romance Vidas Secas, denunciando o desamparo social num Brasil esquecido, vivido por muitos “Fabianos” explorados pelo sistema agrário que fortalecia o latifúndio. Na obra, percebemos como as relações de poder, a mais-valia e a desigualdade social por meio da exploração se fazem presentes. O silêncio das personagens, a falta de diálogo, o “exílio linguístico” como estudaremos mais adiante, nos revela o drama de uma família desamparada, que se cala diante da natureza hostil e da hostilidade de uma classe dominante.

O romance nos faz entender que não é a terra que é seca, são as vidas. A maior parte da narrativa acontece num período propício para a produção e fartura.

Bem. A catinga ressuscitaria, a semente do gado voltaria ao curral, ele, Fabiano, seria o vaqueiro daquela fazenda morta. Chocalhos de badalos de ossos animariam a solidão. Os meninos, gordos, vermelhos, brincariam no chiqueiro das cabras, Sinhá Vitoria vestiria saias de ramagens vistosas. As vacas povoariam o curral. E a catinga ficaria toda verde. (Capítulo 1 – Mudança)
            De fato, a seca só volta a partir do penúltimo capítulo. Com a estação que favorecia a plantação, nascia também a esperança de que a vida seria melhor. Mas ali, numa terra de donos, onde a exploração e a opressão criavam raízes, Fabiano não tinha condições de se legitimar como homem, impossível ainda seria legitimar seus sonhos. 

De acordo com Silva (2001, p.12) “secas não são só as vidas das personagens e as paisagens que atravessam o sertão nordestino, mas também a linguagem do livro”. No capítulo 2 – Fabiano, podemos perceber como a comunição era escassa, mirrada, quase ausente.

Vivia longe dos homens, só se dava bem com animais. Os seus pés duros quebravam espinhos e não sentiam a quentura da terra. Montado, confundia-se com o cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia. A pé, não se aguentava bem. Pendia para um lado, para o outro lado, cambaio, torto e feio. Às vezes utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos - exclamações, onomatopeias. Na verdade falava pouco. Admirava as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas.

            Protez e Menon (2008, p.2) referem-se ausência de linguagem como “a atrofia da palavra, fator que gera a exclusão”. Essa “atrofia” não tem raiz na estrutura familiar e sim, em fatores externos que atingem Fabiano e sua família de modo que as interações que norteiam as relações afetivas e sociais são produtos dessas interferências. Em alguns trechos, percebemos que Fabiano nem sempre se sente confortável em relação à linguagem. No Capítulo 2, Fabiano vê em eu Tomás da Bolandeira um modelo de comunicação e deseja adquirir uma linguagem mais instruída, ou seja, sente necessidade de comunicação: “Em horas de maluqueira Fabiano desejava imitá-lo: dizia palavras difíceis, truncando tudo, o convencia-se de que melhorava. Tolice. Via-se perfeitamente que um sujeito como ele não tinha nascido para falar certo”.

De acordo com Melo (2005, p.385), o desconhecimento da linguagem por parte de Fabiano configurava o desconhecimento da sua realidade, pois “o domínio da linguagem era o domínio do mundo, da realidade, a compreensão de seus mecanismos”. Isto explica porque Fabiano considerava as palavras perigosas: “Admirava as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas”. Melo (2005, p.385) considera que “o ser bicho estava relacionado ao arcaísmo da linguagem de Fabiano e sua Família”. Segundo a autora, somente a palavra lhe daria condições de torná-lo homem, uma vez que a compreensão da realidade se dá mediante a aquisição da linguagem.

Logo no capítulo I – Mudança, percebemos a incomunicabilidade da família que, para aliviar a fome, matara o papagaio mudo: “Não podia deixar de ser mudo. Ordinariamente a família falava pouco. E depois daquele desastre viviam todos calados, raramente soltavam palavras curtas. O louro aboiava, tangendo um gado inexistente, e latia arremedando a cachorra”.

Essa “atrofia da palavra” conforme diz Protez e Menon, é sentida pelos irmãos. A falta de domínio da linguagem dificultava não somente os meninos, mas também Fabiano, que muitas vezes não era compreendido por não saber se expressar. Dessa forma, as frases soltas com repetições e sons guturais recebiam o auxílio de gestos e assim alcançava mais êxito na comunicação. No Capítulo 7 – Inverno, podemos perceber o quanto a linguagem no contexto familiar era deficiente.

Fabiano tornou a esfregar as mãos e iniciou uma historia bastante confusa, mas como só estavam iluminadas as alpercatas dele, o gesto passou despercebido. O menino mais velho abriu os ouvidos, atento. Se pudesse ver o rosto do pai, compreenderia talvez uma parte da narração, mas assim no escuro a dificuldade era grande. (...)

Fabiano gesticulava. Sinhá Vitoria agitava o abano para sustentar as labaredas no angico molhado. Os meninos, sentindo frio numa banda e calor na outra, não podiam dormir e escutavam as lorotas do pai. Começaram a discutir em voz baixa uma passagem obscura da narrativa. Não conseguiram entender-se, arengaram azedos, iam se atracando. Fabiano zangou-se com a impertinência deles e quis puni-los. Depois moderou-se, repisou o trecho incompreensível utilizando palavras diferentes.(...)

O menino mais velho estava descontente. Não podendo perceber as feições do pai, cerrava os olhos para entendê-lo bem. Mas surgira uma duvida. Fabiano modificara a historia - e isto reduzia-lhe a verossimilhança. Um desencanto. Estirou-se e bocejou. Teria sido melhor a repetição das palavras. Altercaria com o irmão procurando interpreta-las. Brigaria por causa das palavras - e a sua convicção encorparia. Fabiano devia tê-las repetido. Não. Aparecera uma variante, o herói tinha-se tornado humano e contraditório.


            Vemos na insatisfação do irmão mais velho a busca incessante pelo significado das palavras.  Outro exemplo de busca do conhecimento através da linguagem está no capítulo 6 – O menino mais velho, que ao ouvir a palavra inferno, busca a sua compreensão: “Entranhando a linguagem de sinhá Terta, pediu informações”. Após algumas tentativas em vão com a mãe, o menino também se frustra com o pai e por ter seu direito de saciar sua curiosidade cerceado, desabafa-se com a cachorra Baleia: “Explicou isto à cachorrinha com abundância de gritos e gestos” . No capítulo 8 – Festa, podemos notar que os irmãos se sentem num ambiente de conflito, estranhos ao mundo da linguagem, dos nomes e das coisas:

Agora olhavam as lojas, as toldas, a mesa do leilão. E conferenciavam pasmados. Tinham percebido que havia muitas pessoas no mundo. Ocupavam-se em descobrir uma enorme quantidade de objetos. Comunicaram baixinho um ao outro as surpresas que os enchiam. Impossível imaginar tantas maravilhas juntas. O menino mais novo teve uma duvida e apresentou-a timidamente ao irmão. Seria que aquilo tinha sido feito por gente? O menino mais velho hesitou, espiou as lojas, as toldas iluminadas, as mocas bem vestidas. Encolheu os ombros. Talvez aquilo tivesse sido feito por gente. Nova dificuldade chegou-lhe ao espírito soprou-a no ouvido do irmão. Provavelmente aquelas coisas tinham nomes. O menino mais novo interrogou-o com os olhos. Sim, com certeza as preciosidades que se exibiam nos altares da igreja e nas prateleiras das lojas tinham nomes. Puseram-se a discutir a questão intrincada. Como podiam os homens guardar tantas palavras? Era impossível, ninguém conservaria tão grande soma de conhecimentos. Livres dos nomes, as coisas ficavam distantes, misteriosas. Não tinham sido feitas por gente. E os indivíduos que mexiam nelas cometiam imprudência. Vistas de longe, eram bonitas. Admirados e medrosos, falavam baixo para não desencadear as forcas estranhas que elas porventura encerrassem.


Protez e Menon (2008, p.4) observam que a ausência de linguagem entre as personagens evidencia a semelhança entre o homem e o animal, comunicando-se “por gestos e ruídos e sem atingir um discurso coerente”. O diálogo quase inexistente parece se justificar pela brutalidade da seca que fazia Fabiano sentir-se um bicho. O silêncio das palavras, na verdade, expõe a miséria da família que se encontra excluída e marginalizada. Sendo assim, a falta de comunicação a mantinha estagnada, sem condições de avançar. Nesse aspecto, Coelho (2008) considera “a questão da linguagem como uma barreira social e, mais ainda, como demarcadora de uma hierarquia social”.

            Diante dessa marginalização que se constitui pela ausência de comunicação, Venturotti (2008, p. 3) chama de “exílio linguístico”. Segundo o autor, a linguagem se torna um mundo tão hostil quanto à seca da região. Isso explica a perturbação dos meninos sem nome em algumas partes da narrativa. Descobrir o significado das coisas tornavam-nas mais próximas: “Livres dos nomes, as coisas ficavam distantes, misteriosas”( Capítulo 8 – Festa). Para Venturotti, o exílio linguístico

está na própria realidade de não terem um nome. Tão desumanizados e destituídos de si mesmos. Permanecem no anonimato, denunciando um descaso com aqueles que vivem no sertão. Não tendo nomes, não possuem identidade e, consequentemente, não adquirem direitos. A mudez a que a família é submetida funciona como um elemento de não-humanidade, por isso ela almeja a linguagem como um fato libertador de sua condição semi-animalesca.
           
            Quando estava na cadeia, Fabiano lamenta por não saber falar direito. Se soubesse, teria se defendido da mal que sofrera. Silva (2001, p.22) considera que, nesse caso, “o bom desempenho linguístico seria uma arma, uma defesa contra injustiças, exclusão, discriminação”. Por não ter instrução, Fabiano recuara, inseguro de seus argumentos diante dos argumentos do soldado amarelo: “Nunca vira uma escola. Por isso não conseguia defender-se, botar as coisas nos seus lugares. (...) Se lhe tivessem dado ensino, encontraria meio de entendê-la. Impossível, só sabia lidar com bichos (Capítulo 3 – Cadeia).   

Outro aspecto importante a ser considerado nessa obra é a fragmentação do romance. A fragmentação não rompe apenas com a linearidade do tempo, ela está presente na linguagem quase inexistente e na compreensão da realidade, na seca que obriga a família a fugir e na opressão social.


“O romance,constituído de treze capítulos, não obstante apresenta-se fragmentário, como quadros de episódios da família, liga-se de modo contínuo, pois o primeiro e o último capítulo tratam do mesmo tema: a fuga da seca.Este caráter revela uma intencionalidade cíclica para a família de Fabiano, pois o mundo fecha-se para eles. (VENTUROTTI, 2008, p.3)

           
A volta da seca no último capítulo parece fechar o mundo para Fabiano, vida cíclica que reforça a perpetuação da miséria, dentro de uma concepção naturalista, em que o sujeito é influenciado pelo meio e pelo contexto histórico. Então, Fabiano segue o mesmo destino que teve seu pai, e que terá seus filhos.

A sina dele era correr mundo, andar para cima e para baixo, a toa, como judeu errante. Um vagabundo empurrado pela seca. (Capítulo 2 – Fabiano)

Bem. Nascera com esse destino, ninguém tinha culpa de ele haver nascido com um destino ruim. Que fazer? Podia mudar a sorte? Se lhe dissessem que era possível melhorar de situação, espantar-se-ia. Tinha vindo ao mundo para amansar brabo, curar feridas com rezas, consertar cercas de inverno a verão. Era sina. O pai vivera assim, o avô também. E para trás não existia família. Cortar mandacaru, ensebar látegos - aquilo estava no sangue. (Capítulo 10 – Contas)

           
            Fabiano vivia num mundo incompreensível, do mundo para si e dele para o mundo. A violência simbólica imposta pelo desamparo discursivo o levava a acreditar que sua pobreza e vida sofrida também tinha um processo natural, a quem não competia entender.

            Se a linguagem é fator determinante para a compreensão do mundo, o “apartheid linguístico” segrega o ser humano, alimenta a desigualdade e o põe à margem da ignorância. Fabiano e sinhá Vitória fazia isso com seus filhos. Quando o filho mais velho queria saber o que era inferno, percebemos que o menino buscava um mundo desconhecido que viesse a ser revelado através das coisas, dos nomes. Reprimi-los e cerceá-los não apenas os impediam de compreender as coisas e passar a enxergá-las à luz das revelações, era mais que isso. Essa influencia do meio tornariam os filhos como os pais, sem a força da palavra e andantes de um sertão implacável, castigados pela natureza e explorados pelos patrões.

CONCLUSÃO

            Diante do exposto no desenvolvimento deste trabalho, analisamos a crítica social e a linguagem em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, que tematiza o livro a partir de Fabiano e sua família e expõe o abandono e o descaso somados à opressão social e à fuga da seca. A enumeração de elementos presentes na obra compõe o cenário de Vidas Secas e retrata a exploração do homem por meio da negação de seus direitos, caracterizados como desamparo social e discursivo.

            Durante a análise, pode-se constatar a situação de miséria e exploração em que vive Fabiano e sua família, castigados pela seca e injustiçados pelo dono da fazenda e governo, contexto histórico que pode estender-se desde à época da publicação da obra até os dias atuais. A falta de comunicação também se mostra como arma de opressão, pois subtrai do homem a palavra, tão necessária para conviver socialmente, em que a linguagem tem papel decisivo de construção do sujeito. Desse modo, o autor expõe a exclusão social marcada pela ignorância linguística e miséria, perpetuando a condição de oprimida da família que silencia e sofre, de maneira que traduz o título tal como suas vidas: secas.
  

REFERÊNCIAS BIBLIGRÁFICAS

ARRAES, Danielle de Campos Gaspar. Linguagem, Poder e Educação: Vidas Secas de Graciliano Ramos e o Estado Novo de Getúlio Vargas. Revista Litteris: no 8, 2011

COELHO, Victor de Oliveira Pinto. Vidas Secas e o Sol da Esperança: uma análise da obra de Graciliano Ramos. Literatura e Autoritarismo: Dominação e Exclusão Social. Revista no 11, 2008.

MELO, Ana Amélia M. C. A Crítica Social e a Escrita em Vidas Secas. Estudos, Sociedade e Agricultura, ano 13, volume 02. UFRRJ, 2005

PALERMO, Iraídes Fátima Bogni e CARBONEL, Thiago Ianez. A retórica da reificação: reflexos contextuais no romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Anais do I Simpósio Mundial de Estudos de Língua Portuguesa. São Paulo: 2008.

PROTEZ, Cláudia Fernanda e MENON, Maurício. O homem e a linguagem em Vidas Secas. Revista Eletrônica Lato Sensu: Ed. 4. UNICENTRO, 2008

RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. Posfácio de Marilene Felinto. – 95ª edição – Rio de Janeiro: Record, 2004.

SILVA, Maria de Narazé Moreira da. A secura do mundo seca a palavra de Fabiano. Belém: Universidade da Amazônia, 2001

VENTUROTTI, Fábio. Exílio, Fronteira e Fome em Vidas Secas. Revista Crioula: no 3, 2008

HESS, Bernard H., BRUNACCI, Maria Izabel, FARIA, Viviane Fleury. Estética da Nacionalidade em Graciliano Ramos. Unicamp, 2005

HIRATA, Francine e CÍCERO, Pedro Henrique. Vidas Secas e muitos “Fabianos”: uma breve problematização das teorias dos movimentos sociais a partir de uma perspectiva de classe. Unicamp, 2009.



Análise literária sobre um poema de Décio Pignatari

(Décio Pignatari – 1968)

Neste poema, temos um exemplo de poesia semiótica, que revela um pouco mais de complexidade semântica, pois sua interpretação exige mais leitura visual das formas puramente gráficas. . Trata-se de um ideograma verbal, cuja distribuição aparece de forma amálgama, revelando a ligação entre as palavras “homem” e “woman”. Sugere a relação entre os dois seres, inserindo-se nesse contexto o ato sexual e a reprodução. 


Análise literária sobre um poema de Paulo Leminski



(Não fosse isso, 1980 – Paulo Leminski)
            
 O arranjo visual das palavras é uma característica marcante da poesia concreta, algumas delas como forma de representação da realidade. Isso faz com que o leitor procure descobrir a forma lógica da apresentação do real, geralmente implícita no poema. 

Como podemos observar no poema de Paulo Leminski (1944-1989), há uma ruptura da sintaxe. Sem a utilização do código verbal, o poema se estrutura pela justaposição de palavras que revelam marcas empresariais famosas da época, em letras maiúsculas e organizadas em grupos.

Década de 80, o poema retrata o desenvolvimento industrial dos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que chama a atenção para o consumismo de suas marcas. Retrata também a superioridade das multinacionais que sufocam e expõem a fragilidade do desenvolvimento nacional, representada pelas “casas pernambucanas”, em letras minúsculas. O termo “GENERAL”, componente das marcas  General Motors e General Eletric, ocupa uma posição central, que reflete o poder imperialista dos Estados Unidos. 

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Análise do conto Nos Olhos do Intruso, de Rubens Figueiredo


O conto “Nos olhos do intruso”, de Rubens Figueiredo, a narrativa surreal apresentada em primeira pessoa, baseia-se numa experiência vivenciada pela personagem, o narrador autodiegético. No conto, a personagem encontra no teatro uma pessoa igual a si, um pouco mais nova. Aos poucos, passa a assumir a identidade do outro numa espécie de amálgama. Ao ser confundido, o narrador toma para si a vida e a memória do outro.

Aos poucos, as atividades que esses desconhecidos atribuíam a mim começaram e me parecer familiares. As pessoas que eles mencionavam chegaram a se tornar íntimas para mim, com seus nomes e suas ambições cotidianas. Tudo ia se incorporando à minha memória. O meu passado se expandia com um novo elenco de pessoas e fatos, ao mesmo tempo em que o meu presente também se ampliava, numa espécie de movimento de conquista. Minha vida abarcava muitas outras vidas e assim eu conseguia me sentir mais vivo do que nunca.
(p.541-542)

Quando o outro morre, se sente ignorado e viaja para a cidade do futuro. Lá, encontra um sósia, um pouco mais velho.

            Medeiros (2007) diz que a construção dessa narrativa nos encaminha ao território do duplo, pois ela se dá de modo que o sujeito não é concebido como uma unidade. Para o autor, “ao abrir mão de uma identidade nuclear, passa a viver o outro, a ser, ao mesmo tempo, vários e nenhum” (MEDEIROS, 2007:28)

            Esse amálgama provoca no leitor a ideia de uma realidade falseada. O narrador encontra seu sósia no teatro, terreno fértil para a ilusão, os sentidos e as metamorfoses.
No final da peça, algumas fileiras à minha frente, aconteceu. Quando as pessoas se levantaram, entrevi, no intervalo das cabeças, um homem parecido com alguém que eu conhecia. Talvez fosse a dança de tantos rostos a meu redor, mas o efeito era o de muitas feições distintas convergindo e se sobrepondo no ar transparente. [...] Uma desconfiança incômoda me obrigou a olhar melhor e então deparei com um sujeito igual a mim mesmo, apenas um pouco mais novo. Sacudido por uma espécie de insulto, experimentei o temor de estar sendo sorrateiramente substituído.
(p.540)

 Para Velásquez (2011, 29), o duplo traz no sujeito um problema em relação “à originalidade, a unicidade e existência”, e faz com que o sujeito passe a hesitar sobre si, fazendo com que o leitor tenha a mesma hesitação.

No conto, a preocupação não é o espaço ou a linearidade do tempo e sim o que nele se encontra. O autor usa uma linguagem correta, elegante, evita as frases longas. O conto é construído no discurso indireto, não se apropria de figuras de linguagem e consegue expressar seus sentimentos numa linguagem mais denotativa e ao mesmo tempo rica em impressões transmitidas da personagem para o leitor, em que o ritmo da narrativa se constrói à medida que as ações se desencadeiam.

A temática principal está na verossimilhança, no encontro do real com o fantástico, em que os ambientes (o teatro, a barbearia) conduzem a personagem ao sobrenatural. Na barbearia, a duplicidade se revela através dos espelhos, que provoca uma crise de identidade, um dilema entre a cópia e o original.

Velásquez (2011, 25) chama a atenção para a literatura fantástica presente no conto de Rubens Figueiredo, pois “contribui com a transgressão dos limites da natureza – limites entre a matéria e o espírito -, que são evocados na literatura fantástica”. Para a autora, tanto o narrador/e ou personagem e o leitor, diante desse elemento literário, hesitam entre o universo fantástico e o limite imposto pela realidade. Isto porque a linguagem construída, que tece o ambiente e as ações que nele acontecem, possibilita ao fantástico e sobrenatural uma visão ambígua, em que “o personagem hesita e o leitor ao se identificar com este também hesita (p. 27)”.

Dentro desse estilo, segundo Velásquez, o ambiente da narrativa, que aparenta ser real, contribui para gerar o incômodo e a desconfiança no leitor, fato que o leva ao encontro com o duplo, ponto principal de sua inquietação.

Podemos perceber que a linguagem da narrativa fantástica constrói uma atmosfera em que a coerência do discurso é rompida, articulando a aparente veracidade dos fatos e criando uma paródia com a lógica racional. Segundo Martinho (2010, 5),

Na linguagem fantástica, persiste um interessante processo de produção de sentidos, embora diferente do jogo literário. No discurso fantástico, a ultrapassagem semântica e estética é, evidentemente, muito mais radical: pretende-se sobrepor o inverossímil sobre a ordem racional, causar inquietações, vacilações e dúvidas para demonstrar que o mundo coerente em que vivemos talvez não seja tão coerente assim.

            Deste modo, o fantástico possibilita uma transformação nos mais variados contextos e questiona os seus limites, sejam eles no plano histórico, social, econômico, político, sexual ou ideológico. Por isso, a autora afirma que a narrativa fantástica é bastante proteiforme, pois mostra a função verdadeira dos valores cultuados pelos sistemas ideológico e faz com que a linguagem corrosiva presente proponha uma fuga do mundo de falsos valores, funcionando como uma máscara que transfigura o real.


BIBLIOGRAFIA

MARTINHO, Cristina Maria Teixeira. A linguagem fantástica: uma experiência de limites. Cadernos do CNLF, vol XIV, No 4. USS, 2010

MEDEIROS, Marco Aurélio Pinheiro. O labirinto dos eus cambiantes: a questão da identidade em “Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato”. UERJ, 2007

MORICONI, Italo (organizador). Os cem melhores contos brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, pag 540 - 543

VELÁSQUEZ, Alexandra Britto da Silva. O duplo na literatura fantástica – análise comparativa entre os contos de Allan Poe, Rubens Figueiredo e Sérgio Sant’Anna segundo Tzevan Todorov em “Introdução à Literatura Fantástica” e Clément Rosset em “O real e seu duplo”. II Colóquio “Vertentes do Fantástico na Literatura”. UNESP, 2011

domingo, 29 de abril de 2012

Análise literária de O Ateneu, de Raul Pompéia

Obs.: Este trabalho é de Leonilton Cruz, Letras/UFRR. Não é o trabalho final, por isso alguns pontos necessitam de revisão. 


Sobre o  autor

            Raul D’Ávila Pompéia, filho de Antonio D’Ávila Pompéia e de Rosa Teixeira Pompéia,  nasceu em 12 de abril de 1863 em Jacuenga, atual Angra dos Reis. Em 1873, veio com sua família para a Corte, no Rio de Janeiro, onde foi interno no Colégio Abílio, um famoso estabelecimento dirigido pelo educador Abílio César Borges, conhecido com  Barão de Macaúbas. Destacou-se como aluno inteligente, aplicado e bom desenhista e caricaturista, chegando a redigir um jornalzinho, “O Archote”. Aos 14 anos, em 1877, continua seus estudos  no Colégio Pedro II, época em que publicou o seu primeiro romance, Uma tragédia no Amazonas (1880). Em 1881, iniciou o seu curso de direito na Faculdade Largo de São Francisco, em São Paulo, onde participou de movimentos abolicionistas e republicanos.  Durante seu curso, iniciou a publicação do Jornal do Commércio de São Paulo, dos poemas em prosa e Canções sem Metro. Após ser reprovado no terceiro ano, transferiu-se com 93 acadêmicos para a Faculdade de Direito de Recife, onde concluiu o curso.

            De volta para o Rio de Janeiro, escreveu crônicas, folhetins e contos e em 1888, publicou o romance o Ateneu, que lhe consagrou como escritor. Após a proclamação da República, foi professor de mitologia da Escola de Belas Artes e posteriormente, diretor da Biblioteca Nacional. Prosseguiu em suas atividades de jornalista político, revelando-se como um “florianista” exaltado, causando divergências em seu meio. Em 1895, no enterro de Floriano Peixoto, fez um discurso exaltado contra Prudente de Morais, sucessor na Presidência da República. Suas posições polêmicas acabariam por levá-lo à demissão de seu cargo de diretor da Biblioteca Nacional. Passa a ser duramente criticado por seus opositores e impedido de publicar seus trabalhos no Jornal A Notícia, passa por um abatimento profundo. Isolado e rompido com seus pares, suicida-se com um tiro no peito, na noite de Natal de 1895, no Rio de Janeiro.

Principais Obras

Uma tragédia no Amazonas (romance) – 1880
As jóias da Coroa (panfleto satírico) – 1882
Canções sem metro (prosa poética) – 1883
O Ateneu (romance) – 1888

Resumo da Obra

O Romance começa com os primeiros contatos de Sérgio, aos 11 anos, com o Ateneu e sua apresentação a Aristarco e D. Ema antes de ser admitido no colégio. Sérgio teve aulas de um professor em domicílio e visitara duas vezes o Ateneu antes de sua instalação. O pai que lhe diz a porta do Ateneu: “Vais encontrar o mundo. Coragem para a luta”, faz com que o menino um novo ciclo em sua vida, distante do aconchego do lar, dos carinhos e do amparo familiar. Sérgio logo perceberá o significado das palavras do pai e o que está por trás das boas impressões que o internato causa fora dele.   Ocorre a  análise preliminar do internato pelo narrador.

O professor Mânlio recomenda Sérgio à Rebelo, um de seus melhores alunos, que lhe faz as primeiras revelações sobre o ambiente perigoso do internato e a necessidade de ser forte e não admitir protetores. As primeiras aulas são os contatos iniciais e análise dos colegas de classe, com destaque para Rebelo, Franco, Sanches e Egbert. Na primeira aula, ao ser interrogado pelo professor Mânlio, Sérgio é acometido por um forte pavor e desmaia. Levado para a rouparia, encontra um folheto obsceno. Tem o seu primeiro desentendimento com Barbalho, com quem briga.

Aristarco tinha o hábito fazer pela manhã a leitura das notas, motivo de constrangimento e terror para os alunos, em que os fortes eram enaltecidos e os fracos desmoralizados.

A narrativa dá destaque para o episódio do banho e o afogamento de Sérgio que é salvo por Sanches, que se torna o suspeito de ter causado o acidente intencionalmente. Grato, Sérgio se aproxima de Sanches, e favorecido pelo ótimo desempenho escolar deste, que era o primeiro da turma, melhora o seu rendimento nas notas. Mas a relação entre os dois se torna indelicada para Sérgio mediante as insinuações de Sanches, que o assedia. Sérgio se afasta de Sanches e este, vigilante que era, usa de sua influência para atingir Sérgio e vingar-se.

Sérgio tem seu nome anotado no “livro das notas”, no qual eram registradas as ocorrências e a indisciplina dos alunos, que ia à público por Aristarco nas refeições. Sérgio entra numa fase de desânimo e vivencia um período de misticismo e de religiosidade particular, após encontrar uma gravura em cartão de Santa Rosália, que torna sua padroeira.

A fama de mau aluno o aproxima de Franco, que para se vingar das humilhações sofridas, espalha caco de garrafas de vidro durante a noite na piscina onde os alunos se banhavam pela manhã. Sérgio acompanha o ardil propósito de Franco e atormentado pelo remorso e cumplicidade, perde o sono ao imaginar a tragédia iminente. Desespera-se e na capela do internato, reza a sua padroeira e acaba adormecendo. No dia seguinte, é acordado e ao questionar sobre o tanque, é informado que a piscina foi esvaziada para trocar a água que estava suja de repetidos usos e os meninos se banharam no chuveiro. Sérgio deixa de lado o misticismo, perde seu fervor pela religiosidade e confere à Santa Rosália a simples função de marcador de livros. Conta ao pai o que era realmente o Ateneu. Passa a encarar a vida de outra maneira e toma uma postura independente, enfrentando, inclusive, a autoridade de Aristarco.

Um novo aluno chega no colégio: Nearco, valoroso ginasta, filho de uma nobre família pernambucana. Torna-se membro do Grêmio Literário  “Amor ao saber” e revela-se um excelente orador. Sérgio comparece nas reuniões como simples assistente. Passa a freqüentar a biblioteca e faz amizade com o gaúcho Bento Alves, que trabalhava como bibliotecário. A amizade entre os dois torna-se muito íntima e passam a ser alvos de comentários e piadas dos colegas.

Os olhares se voltam para um crime passional, resultado da disputa entre um jardineiro e outro funcionário pelo amor de Ângela, que confessava a um e a outro a sua preferência. Bento Alves torna-se conhecido e respeitado por segurar o assassino.

Barbalho passa a fazer insinuações sobre a amizade de Sérgio e Bento Alves. Para tanto, Barbalho se constituía como um fiscal oculto de seus passos e vê na inimizade entre Malheiro e Bento Alves uma forma de provocá-lo severamente, incitando um contra o outro. Durante uma sessão do Grêmio, Bento Alves e Malheiros brigam violentamente. Malheiros apanha e Bento Alves é surpreendido por uma ordem de prisão de Aristarco. Então, escreve uma carta para Sérgio, informando-o. 

Uma exposição artística marca o início do segundo ano no Ateneu. Nessa volta, o comportamento de Bento Alves muda e, sem explicações, volta-se contra Sérgio assim que o vê e o espanca. Sérgio reage e no calor da briga, agride também a Aristarco que, curiosamente, não toma providências sobre a agressão sofrida e se silencia. Bento Alves sai do Ateneu.

Um escândalo envolvendo dois alunos é descoberto por meio de uma carta encontrada por um dos inspetores. Na carta, Cândido se passa por Cândida e aceita um convite de Emílio para um encontro no jardim. Aristarco os humilha-os publicamente e também outros alunos que sabia do fato e não teriam denunciado ao diretor. Para não envolver a credibilidade do internato, Aristarco, que nada lucrava com o escândalo, decidiu não expulsar os alunos e abrandou o caso.

Sérgio conhece pela primeira vez a verdadeira amizade com Egbert, com quem compartilha um relacionamento sem interesses, de admiração e bons momentos construídos. Sérgio dedicava-se a Egbert o tinha com ternuras de um irmão mais velho. Os dois recebem o convite de um jantar na casa de Aristarco por terem se destacado nos estudos e Sérgio tem a oportunidade de rever D. Ema, que o reconhece. Nasce em Sérgio um apego e  encantamento por D. Ema, uma relação ambígua de mãe e mulher. O amor fraternal entre Sérgio e Egbert se esfria e Sérgio passa a dormir do alojamento dos alunos maiores, fato que os afasta ainda mais. É a época dos exames na secretaria de Instrução Pública. Num ambiente mais masculino, vive com os meninos mais velhos outras peripécias. A camareira Ângela desperta neles uma incontrolável sensualidade, que os faziam ficar fora do dormitório nas saídas noturnas e espiar o sono do inspetor Silvino, por quem tinham que passar para chegar ao jardim da casa de Aristarco. 

Sérgio visita Franco e o encontra doente. Encontrava-se nesse estado desde a última vez que tinha ido para a prisão. Recebe a visita dos médicos duas vezes, que recomendou não deixar Franco exposto ao sereno. Morre alguns dias depois.

Chega o fim do ano letivo. Os alunos fizeram uma cota e construíram um busto em bronze do diretor que, à princípio se sente lisonjeado, mas depois vê na estátua uma espécie de rivalidade, com a  qual competia. Ocorre a premiação dos alunos, com a presença da princesa Isabel.

Após as festividades, Sérgio adoece de sarampo. A família tinha viajado para a Europa para tratamento de seu pai e devido a isso, permanece na enfermaria da escola no período de férias. A presença de D. Ema era constante, que cuida de Sérgio, cuja dedicação se confunde e intensifica os conflitos internos, os quais Sérgio não consegue distinguir.

A obra se encerra com o fim da instituição, destruída por um incêndio, propositadamente causado por Américo, um aluno revoltado que, recém admitido, estava ali forçado pelo pai. Aristarco assiste a seu patrimônio sucumbir, devorado pelas chamas. D. Ema o abandona.

As personagens 

Sérgio: Personagem central. A história é contada a partir de sua ótica. Criado no aconchego do lar sob carinhos maternos, penetra no mundo do Ateneu aos onze anos. Como protagonista, é um menino sem experiência e tímido, mas como aluno interno, aos poucos se familiariza com o sistema pervertido do internato e torna-se amargo e sarcástico, momento em que Pompéia assume os moldes de protagonista-narrador. Sérgio passa por uma vivência dolorosa, perde a sua pureza e compreende a realidade do universo do internato, que nada mais é que um reflexo da sociedade no mundo além dos muros do colégio.

Aristarco: É o diretor do Ateneu. Seu nome, que significa “governo dos melhores” revela o seu modo autoritário e insensível de governar. É egocêntrico e moralista. Seus interesses não se pautam apenas sobre o ponto de vista pedagógico. Tem a escola como um comércio, colocando-o como uma vitrine aos olhos da sociedade.

Ema: Mulher de Aristarco. Sua figura pode ser compreendida a partir de dois ângulos: como mãe, pela sua ternura, compreensão e cuidados e como mulher, devido a sua presença feminina diante dos meninos em processo de descoberta da sexualidade.

Angêla: Camareira de D. Ema. “Grande, carnuda, sanguínea e fogosa” (Cap. V). É a materialização do sexo. Costumava assistir aos banhos dos rapazes e torna a figura central no assassinato que ocorre no colégio.

Dr. Cláudio: Professor, palestrante, íntegro. Figura como Raul Pompéia adulto.

Franco: O bode expiatório de todos, sobre o qual se descarrega toda a violência, inclusive de Aristarco.

Sanches: O sedutor. Oferece proteção aos meninos novos e os ajuda nos estudos, com segundas intenções.

Bento Alves: Amigo íntimo de Sérgio, a quem o estima femininamente. É forte e conhecido por todos.

Rebelo: Aluno exemplar, com quem Sérgio tem seus primeiros contatos, recebendo seus conselhos.

Egbert: Aluno com quem Sérgio construiu sua melhor amizade.
  

O contexto histórico-social

A partir de 1850, a campanha abolicionista se intensifica e após a Guerra do Paraguai (1864-1870), o movimento republicano ganha força no país e  em 1870, é criado o Partido Republicano. As idéias do liberalismo e da democracia ganham mais espaço. A monarquia entra em decadência e 1888 (mesmo ano da publicação do romance O Ateneu) vigora a Leia Áurea, que cria uma nova realidade: o fim da mão-de-obra escrava, substituída por mão-de-obra assalariada dos imigrantes europeus.

A indústria se desenvolve cada vez mais, ao mesmo tempo em que a ciência se evolui e passa a ter uma importância fundamental para a explicação do mundo físico a partir da experimentação e observação da realidade. O Capitalismo se fortalece e o crescimento a população urbana, a desigualdade econômica e o surgimento do proletariado provocam profundas transformações econômicas, políticas, sociais e culturais a partir da segunda metade do Séc. XIX.

É nesse contexto que Raul Pompeia realiza a sua obra-prima O Ateneu. Uma época em que os colégios, instituições de ensino das elites, eram rigorosos e valorizavam quem tinha mais poder aquisitivo. O Ateneu era um internato freqüentado pela elite brasileira, no Rio de Janeiro, durante a segunda metade do século XIX.

O contexto literário

O Contexto literário está fortemente ligado ao contexto histórico político-social da época. Na segunda metade do século XIX, os movimentos que mais marcaram época foram o Naturalismo e o Realismo, embora o Parnasianismo, o Simbolismo, bem como o Impressionismo e o Expressionismo também tenham contribuído significativamente nas transformações literárias deste século e que culminam com o Modernismo.

Em O Ateneu, pode ser encontrado várias estilos literários. Coutinho (2004, p?) considera Pompéia um escritor impermeável a classificações literárias: “Parnasiano? Realista? Naturalista? Psicologista? Impressionista? As diferentes classificações que lhe tem sido atribuídas são um índice de complexidade de sua arte máxima”. O que podemos perceber é que o autor transitava entre os vários estilos literários, embora a sua obra carregue traços marcantes do Naturalismo e Realismo. Segundo Bosi (1994, p.183), não se pode definir o Ateneu como uma obra realista, pois há outros traços que marcam o romance, como poderemos observar mais adiante. Em suma, o estilo de Raul Pompéia foge de toda e qualquer padronização literária, o que impede de classificá-lo numa categoria fixa.
  

Realismo
Segundo Coutinho (2004, p.12),
o Realismo é a tendência literária que procura representar, acima de tudo, a verdade, isto é, a vida tal como ela é, utilizando-se, para isso, da técnica da documentação e da observação contrariamente à invenção romântica. Interessado na análise de caracteres, encara o homem e o mundo objetivamente, para interpretar a vida. Utilizando-se das impressões sensíveis, procura retratar a realidade graças ao uso de detalhes específicos, o que faz que a narrativa seja longa e lenta e dê a impressão nítida e fidelidade dos fatos. A estética realista procura atingir a beleza sob os disfarces do comum e do familiar, no ambiente local e na cena contemporânea.

Em O Ateneu, o Realismo está presente na crítica social e explícita ao sistema educacional e o retrato fiel aos valores da época. É nessas críticas que se percebe um pessimismo cético na visão da realidade, tornando a narrativa lenta, dessecante e profunda. No internato, tudo é visto negativamente, Sérgio vê a escola como um antro de perdição, envolvida de hipocrisias, injustiças falsidades e amizades perigosas. Esta relação entre a escola e sociedade é observada  no capítulo XI: “Não é a escola que faz a sociedade, a sociedade a reflete”.

Raul Pompéia era republicano. Seus ideais políticos podem ser percebidos na obra, produto de sua insatisfação ao Segundo Império. Esse ideal republicano é percebido logo no primeiro capítulo, representado por Jorge, filho de Aristarco: “Seu filho Jorge, na distribuição dos prêmios, recusara-se a beijar a mão da princesa, como fazia todos ao receber a medalha. Era republicano o pirralho!”

Naturalismo

Os elementos naturalistas estão notavelmente presentes na obra. É a vida apresentada por meio da observação, captada por Sérgio e narrada, ora como confissão, ora como apresentação de um ambiente imperfeito e pervertido. Para Coutinho (2004, p. 13)
o naturalismo acentua as qualidades do Realismo, acrescentando uma concepção da vida que vê como o intercurso de forças mecânicas sobre os indivíduos, resultando atos, o caráter e o destino destes da atuação da hereditariedade e do ambiente. O espírito da objetividade e imparcialidade científicas faz com que o naturalista introduza na literatura todos os assuntos e atividades do homem, inclusive os aspectos bestiais e repulsivos da vida, dando preferência às camadas mais baixas da sociedade. (...) o Naturalismo procura representar toda a natureza, a vida que está próxima da natureza, o homem natural.

Na obra, o instinto natural do homem, o determinismo e a influência do meio entoa a realidade patológica do indivíduo, as situações de desequilíbrio em que o homem se comporta como um animal, entregue aos instintos, condicionado, subjugado, fatores que determinam o seu comportamento. E é nesse aspecto animalesco que, muitas vezes, as personagens são descritas: João Numa é comparado a um porco, Nearco parece um avestruz e Ângela tem a submissão de cadela. A homossexualidade também é abordada na obra pelo viés naturalista, mas falarei desse assunto posteriormente.

Outros elementos do Naturalismo podem ser percebidos nas personagens. Franco é o bode expiatório, o alvo sobre o qual é imputada toda a violência do internato, desde as humilhações dos colegas até as lições disciplinares de Aristarco, quando o usava como contra-exemplo, conforme observa Balieiro (2009, p.42):
À nota do Franco, sempre má, devia seguir-se especial comentário deprimente, que a opinião esperava e ouvia com delícia, fartando-se de desprezar. Nenhum de nós como ele! E o zelo do mestre cada dia retemperava o velho anátema. Não convinha expulsar. Uma coisa destas aproveita-se como um bibelô do ensino intuitivo, explora-se como a miséria do ilota, para a lição fecunda do asco. A própria indiferença repugnante da vítima e útil. (Cap.II)

Para Bosi (1994, 186) há no internato uma teia de interesses presa ao prestígio da riqueza, que contorna as diferenças individuais, e nas relações entre as personagens. Conforme o autor, após destruída a fachada que a cerimônia inicial levantara, Sérgio “percebe espantado uma divisão entre fortes e fracos, que a crise pubertária vai colorir de matizes sexuais. As lideranças, já coadas pelo poder da riqueza, se farão por critérios musculares ou etários: os mais rijos, os mais velhos e calejados tem condições de dominar os novatos.” A esta análise podemos acrescentar a observação de Sérgio em sua narração, no capítulo III: “Tudo ameaça os indefesos”.

Outro exemplo é o crime passional que envolveu dois amantes de Ângela, que intencionalmente, estimulava-os declarando a um e outro a sua preferência.

Impressionismo

Quintale Neto (2007, p. 43) menciona Heredia (1979) que diz que o impressionismo no romance pode ser visto “nas técnicas de apresentação dos acontecimentos e personagens, na estrutura orbital e não linear da narrativa que segue um tempo psicológico e não cronológico, no relevo que as cores tem ali acompanhado as sensações visuais exploradas pelo escritor”. Quintale Neto destaca a grande importância que o impressionismo deu ao uso da luz e da sombra que, segundo o autor, realça “a impressão que o ambiente causa, e não o contorno e a perspectiva do objeto representado.” Coutinho (1996, p. 325), diz que o mais importante no Impressionismo “é o instantâneo e o único, tal como aparece ao olho do observador. Não é o objeto, mas as sensações e emoções que ele desperta, num dado instante, no espírito do observador, que por ele é caprichosa e vagamente.” Em O Ateneu, Pompéia tem uma linguagem em que as palavras manifestam elementos dentro dessa perspectiva. Como o narrador é o protagonista, a construção da narrativa se dá impregnada de impressões, cuja explicação está no caráter memorialista que projeta lembranças e sensações a que o narrador recorre para apresentar os fatos.

Para exemplificar o impressionismo na obra, Quintale Neto faz referência a Mölk, quando este cita a cena de um passeio que os alunos fazem pela mata. Segundo Mölk, “vê-se a descrição do narrador como quem pinta um quadro impressionista, sempre em busca da expressão mais precisa”:
Passeio noturno de alegria sem nome. As árvores beiravam a estrada de muros num e noutro ponto rendada de frestas para o céu límpido. No caminho, trevas de túnel e a agitação confusa das roupas, malhada a esmos de placas de luar brando – réptil imenso de cinza e leite em vagarosa subida. Que sonho de cócegas experimentaria o colosso, na dormência de pedra que o prostrava ainda, espezinhado pela invasão! Subíamos. Pelas abertas do arvoredo devassávamos abismos; ao fundo a iluminação pública por enfiadas, como rosários de ouro sobre o veludo negro. (Cap. VIII)

Para Mölk, nada nesse trecho é visível ou claramente perceptível, que favorece a subjetividade. Podemos perceber a construção sombria da imagem, característica marcante do impressionismo. O autor observa como o narrador descreve a impressão que o ambiente causa. Quintale Neto (2007, p. 47) ressalta que há constantemente o uso da palavra impressão ou  impressões ao longo da narrativa. Logo nos primeiros contatos de Sérgio com o Ateneu, como podemos ver no capítulo I: “É fácil conceber a atração que me chamava para aquele mundo tão altamente interessante no conceito de minhas impressões”. O autor nota ainda o uso do pronome possessivo minhas, que enfatiza o caráter subjetivo da representação.

Expressionismo

Segundo Castro (2010, p. 14), o expressionismo está presente na obra na forma como o mundo da escola é visto é retratado a partir da perspectiva particular de Sérgio, que expressa seus sentimentos e os sentimentos dos outros a partir do seu ponto de vista. Bosi (1994, p.183) também dá exemplos de traços expressionistas, “como o gosto do mórbido e do grotesco com que deforma sem piedade o mundo do adolescente”. O autor destaca o expressionismo na captação dos ambientes e das pessoas por meio da imagem:

·         “As mangueiras, como intermináveis serpentes, insinuavam-se pelo chão...” (cap. XII);
·         “As crianças (...) seguindo em grupos atropelados, como carneiros para a matança.” (cap. VIII);
·         “Permitia, quando muito, que Rômulo a seguisse cabisbaixo e mudo, como um hipopótamo domesticado.” (cap. VII)
·         “Ele gozava como um cartaz que experimentasse o entusiasmo de ser vermelho.” (cap. I)
Coutinho observa que estas aproximações, em geral, são violentas e, no caso das pessoas, adquire um tom depressivo. Para ele, “a norma é o caricato, revelando o quanto de traumático deve ter marcado as experiências que lhes ficavam subjacentes.”

Podemos identificar na obra elementos expressionistas na descrição das personagens por meio dos exageros das emoções e na distorção da realidade por meio de caricaturas grotescas, como podemos ver neste trecho da obra, em que Sérgio descreve seus colegas de sala:
Os companheiros de classe eram cerca de vinte; uma variedade de tipos que me divertia. O Gualtério, miúdo, redondo de costas, redondo de costas, cabelos revoltos, motilidade brusca e caretas de símio – palhaço dos outros, como dizia o professor; o Nascimento, o bicanca, alongado por um modelo geral de pelicano, nariz esbelto, curvo e largo como uma foice; o Álvares, moreno, cenho carregado, cabeleira espessa e intensa de vate de taverna, violento e estúpido, que Mânlio atormentava, designando para o mister das plataformas de bonde, com a chapa numerada dos recebedores, mais leve de carregar que as responsabilidade dos estudos; o Almeidinha, claro, translúcido, rosto de menina, faces de um rosa doentio, que se levantava para ir à pedra com um vagar lânguido de convalescente; o Maurílio, nervoso, insofrido (...) (Cap. II)

Essa descrição também se dá sobre Aristarco de forma caricatural e grotesca. Após a descoberta da falsidade na linguagem do diretor do internato, Sérgio o tinha como a perversidade do sistema, que egocêntrico, autoritário e dotado e uma impressionante linguagem retórica,  dirigia a escola como se fosse uma casa de comércio.

Foco Narrativo  - Enredo

A obra é narrada em primeira pessoa. Seu narrador, Sérgio menino, relata suas memórias de infância vividas no internato. Vale observar que o romance inicia com o narrador-protagonista penetrando no Ateneu, mundo que ele mesmo vai descrever. Fechada as portas, o narrador expõe as mazelas desse mundo de modo profundo e dissecante.

Outro destaque do foco narrativo é que Sérgio é considerado um outro “eu” de Raul Pompéia. O narrador recebe a personalidade e as memórias do autor, que também estudou num internato, o que explica o subtítulo “Crônica de saudades”.  Para Castro (2010, p. 16), a obra não é uma simples autobiografia e nem uma obra de ficção e sim, uma mistura das duas.

Quintale Neto (2007, p. 36) cita Camil Capaz (2001), que vê caráter biográfico inquestionável o modo opressivo que cerca Sérgio, narrador que Pompéia escolheu para falar em seu nome. Quintale Neto destaca que uma longa nota anônima publicada na Gazeta de Notícias, provavelmente escrita ou pelo menos autorizada pelo autor de O Ateneu, esclarece que “o cronista faz a crítica do que viu e sentiu, do que lhe ensinara e de como lhe ensinaram”. Então, pode se concluir que em O Ateneu há uma mistura das experiências vividas por Pompéia retratadas pelo personagem Sérgio.

Tendo como afirmação de que o romance foi escrito por meio da memória e introspecção, o colégio O Ateneu assume o lugar do colégio Abílio em que Pompéia estudou. Através da narração de Sérgio, o autor deixa evidente a crítica amarga pelo modo como o ambiente e as personagens se constituem.

Coutinho (1996, p. 179) chama a atenção para o lado psicólogo de Pompéia em várias passagens de O Ateneu, que evidencia a versatilidade artística do autor, que aponta para o rancor e a sátira, dirigido para quase todos os lados e principalmente contra Aristarco.  
Mas aí está a arte de Pompéia, em suas características principais: a frase pinturesca e vivaz, as imagens ou expressões e adjetivos imprevistos, o senso plástico do desenho caricatural provocado pela mordacidade irônica.
O perfil de Aristarco procede enfim de uma ótica espiritual caprichosa, excêntrica e maligna, cuja incidência em vários tipos e cenas transmite à narrativa o mais estranho frêmito

Para Coutinho, o modo como o elemento autobiográfico sobressai e a atitude insofrida e agressiva que predomina no romance, a que o autor denomina de “gesticulante”, é “um traço de identidade do processo estético do romancista com o dos naturalistas da linha divergente de Zola, os irmãos europeus Edmond e Jules de Goncourt”. Para ele, a escrita artística de Pompéia tem a influência e carrega traços da “prosa artística” dos irmãos Goncourt.

O autor também dá destaque para o contexto jornalístico do romance. O Ateneu teria sido escrito dia a dia para publicação no jornal, durante três meses. No artigo de Morato, “O reflexo do cotidiano nas crônicas de Raul Pompéia – um olhar sobre a Crônica Jornalística-Literária”, a autora diz que as publicações tinham um engajamento social, tendo em vista que a maior parte de seus trabalhos eram publicados nos jornais em que trabalhou. Para ela, “se buscarmos compreender as obras de Raul Pompéia, seremos capazes de identificar nelas a visão de mundo do autor, que o orienta ao uso da linguagem e a malha dos conflitos que animaram e afligiram a sociedade brasileira no final do século XIX”. (p. 31)

Balieiro (2009, p. 10), analisa o enredo nas perspectivas de Mário de Andrade e Alfredo Bosi:
Em artigo de Mário de Andrade (1974), sublinha-se o conteúdo autobiográfico do livro, interpretando o romance como uma obra de vingança contra o ambiente educacional marcada por uma certa pedagogia vivenciada pelo próprio Pompéia. Na perspectiva de Andrade, o enredo se fixa na escola em caminho bem diverso da literatura contemporânea naturalista e realista marcada por amplas sínteses sociais. A análise de Alfredo Bosi (1988) aponta outro caminho de interpretação possível: ressalta a opacidade do ambiente que caracterizava a vivência de Sérgio na qual cada momento narrado esconde um risco iminente ou recorrente (palavras do autor)”.

Balieiro também cita Araripe Júnior (1978), que compreende o romance num tom darwinista, em que Sérgio procura resistir ao meio, da perversão sexual do internato, por ele narrado numa trama que, segundo Rodrigues (1979, p. 167) é a “explosão libidinosa da adolescência desinformada”. Para Rodrigues, nem é isto que choca em O Ateneu e sim, “o desvelar da trama em que o ser humano ser perde justamente na hora que procura encontrar-se” o qual chama de “movimento de deformação, a dialética mortal em que toda a pulsação estética do homem (estética num sentido bem amplo, que envolve a raiz das relações entre homem e mundo) se vai constituindo em castração cultural. É como se o narrador fizesse a seu modo um regresso psicanalítico às fontes primeiras de suas cicatrizes”.

Para Balieiro, outro destaque do romance  é “pedagogização do sexo” ou seja, a atenção que se tinha sobre a sexualidade e pelo suposto perigo que oferecia, quando era tida fora das normas da coletividade, em que as práticas homossexuais compreendidas como o resultado de um desejo, gerado pela força natural e ia contra as regras sociais. Segundo o autor, este “dispositivo de sexualidade construía corpos masculinos a partir de uma base heteronormativa que se impunha”. Este enredo rico em situações homoafetivas, mais tarde trouxe problemas para Pompeia.

No enredo, Balieiro acentua o teor darwinista-social em O Ateneu. O Gazeta de Notícias  interrompeu a publicação do romance em 14 de maio de 1988, auge da abolição da escravatura, que tomava as páginas do jornal. O romance só volta a ser publicado no dia 18, em que aparece o desfecho onde Américo, supostamente, incendeia o internato. Segundo o autor, “não é possível afirmar se Pompéia criou este final antes ou depois da abolição, mas é sugestivo pensar na influência que pode ter tido a promulgação da Lei Áurea nos caminhos do romance”. O que se percebe é uma crítica à monarquia associado à figura de Aristarco e a visão esperançosa de Pompéia pela queda do Império, associado à destruição do internato por Américo.

Ainda no enredo, Balieiro (p. 41) chama a atenção no modo como o romance disserta sobre o darwinismo e linha evolucionista da história da arte nas palestras do Dr. Cláudio:
“O esforço da vida humana, desde o vagido do berço até o movimento do enfermo, no leito da agonia, buscando a posição mais cômoda para morrer, é a seleção agradável”. (...) “A história do desenvolvimento humano nada mais é do que uma disciplina longa de sensações. A obra da arte é a manifestação do sentimento”. (...) Manifesta-se primeiro grosseiramente, por erupções de sentimento e faz o amor concreto, a interjeição, a eloqüência rudimentar, a poesia primitiva, o primitivo canto. Manifesta-se mais tarde, progressivamente, por efeitos de cálculo  e meditação e dá o epos, a eloqüência culta, a música desenvolvida, o desenho, a escultura, a arquitetura, a pintura, os sistemas religiosos, os sistemas morais, as ambições de síntese, as metafísicas, até as formas literárias modernas, o romance, a feição atual do poema e do mundo. (Cap. VI)

Para Balieiro, fica claro que os discursos do Dr. Cláudio são influenciados pelo determinismo. Mas essa influência não se restringe somente ao discurso do professor, estão espalhados no romance na descrição das personagens, e cita Mário de Andrade (1974) que diz: “Raul Pompéia os desenha com malvadez, grotescos, invejosos, insensíveis, perversos ou brutais”, onde o meio é se torna um difícil escape: “O meio, filosofemos, é um ouriço invertido, em vez da explosão divergentes dos dardos – uma convergência de pontas ao redor. Através dos embaraços pungentes cumpre descobrir o meato de passagem, ou aceitar a luta desigual  da epiderme contra as puas. Em geral, prefere-se o meato”. (Cap.V)

O autor ainda discorre sobre outros elementos naturalistas no romance, como “a sensualidade, as paixões, a fraqueza e as vergonhas materializadas nas relações homoafetivas dos próprios alunos”, tudo descrito pessimamente por Sérgio durante a narração, ou inseridos nos discursos do Dr. Cláudio.

Tempo
Por conter traços biográficos, o tempo é dividido em tempo psicológico e tempo cronológico. O primeiro é o da memória, que é apresentado pelo narrador através de episódios marcados por lembranças. O tempo cronológico coincide com a trajetória de Sérgio no internato, linearmente circunscrito em dois anos, desde a entrada de Sérgio até o incêndio que o destrói.

Espaço
A narrativa se desenvolveu no Rio de Janeiro, final do século XIX.  O colégio representa um espaço reduzido da cidade que contribui para a compreensão do contexto histórico. As ações ocorrem no internato “O Ateneu, quarenta janelas, resplandecentes do gás interior, dava-se ares de encantamento  com a iluminação de fora (...)” (cap. I).  

Linguagem

Em O Ateneu, podemos perceber que a narração se dá através de uma linguagem impressionista e expressionista, predominando a sensação visual, olfativa e auditiva, através de elementos ricos de imagens, sonoros e coloridos. Segundo Morato (2010, p.16) Raul Pompéia seguia o estilo da época, marcada pela correção e padrões gramaticais rígidos. Trata-se de “uma linguagem distante do leitor moderno, usa com freqüência construções clássicas, figuras mitológicas, tendência para o uso excessivo de adjetivos que quase sempre acompanha o substantivo. Um exemplo dessa construção clássica está no uso do pronome átono antes da palavra referencial: “disse que me não interessava as intrigas” (Cap. X). Vejamos um exemplo de figuras mitológicas: “Era mais que uma revelação temerosa do Olimpo; era como se Júpiter mandasse Mercúrio catar à terra os raios já disparados e os unisse inavaliável dos arsenais do Etna (...)” (Cap. IV)

A tendência para a adjetivação, como já citado, é outro aspecto notório da linguagem no romance: “Erigia-se na escuridão da noite, como uma imensa muralha de coral flamante, como um cenário animado de safira, com horripilações errantes de sombra, como um castelo fantasma batido de luar verde emprestado a selva intensa dos romances cavalheirescos (...)” (Cap. I). Outro exemplo é o modo como o narrador referiu-se à Aristarco, ao assistir à destruição do Ateneu: “Ele, como um deus caipora, triste, sobre o desastre universal de sua obra” (Cap. XII).

Morato observa a tendência para a comparação através da conjunção “como”: “No pátio, o silêncio dormia ao sol como um lagarto” (Cap. XII); o uso de hipérboles: “Aristarco arrebentava-se de júbilo” (Cap. I); o emprego de metáforas: “Com o Ateneu estava satisfeito: uma sementeira razoável, não fazia rogar para florescer” (Cap. XI).

Além dessas figuras de estilos, podemos encontrar também a personificação: “o Sol vinha também à capela e colava de fora a fronte às vidraças (...)” (Cap. IV); Metonímia: “Acima de Aristarco – Deus! Deus tão somente; abaixo de Deus – Aristarco.” (Cap. I); e eufemismo: “Aqui suspendo a crônica das saudades” (Cap. XII)

Coutinho (2004, p. 177) fala sobre a ênfase que Pompéia dá às cores em sua linguagem: “Realmente, a cor era quase tudo para Pompéia, e no fazê-la prevalecer no seu estilo, agiu como mais viva sinceridade consigo próprio”. Podemos perceber esse nesse cromatismo do autor um apego a cor luminosa e viva e a adesão à claridade que o classifica no estilo impressionista: “(...) há sons brilhantes como a luz vermelha, que se harmonizam no sentimento com a mais vívida animação” (Cap. VI); “(...) ao fundo daquelas altíssimas paredes do Ateneu, claras da caiação do tédio, claras, cada vez mais claras” (Cap. VII).

O Ateneu como um microcosmo

No romance, o Ateneu é apresentado como um retrato da sociedade, a narrativa constitui o internato como um organismo vivo, em que mundo que se revela por dentro  é refletido pela sociedade através das máscaras e falsas aparências que corroboram com a corrupção, a hipocrisia, a exploração do homem e outras degenerações sociais.

Julio Valle (2010), eu seu artigo intitulado “Os muitos mundos de O Ateneu”, fala sobre essa relação, que representa de forma literária um presumível mundo real. Segundo o autor, a vivência se inicia no mundo infantil, que é englobado por outro maior, o mundo-internato (microcosmo), que será absorvido pelo maior conjunto, o mundo-verbo (Ciência e Arte). Julio Valle (2010, p.2) diz que
todo o romance pode ser compreendido como uma extensão de sua frase inicial: “Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta” O parágrafo seguinte só viria a confirmar este programa: “Bastante, experimentei depois a verdade desse aviso (...)”. Ou seja, o que se seguirá, parece, é mesmo a narrativa desse encontro inaugural com a face extracurricular da vida. Neste processo, o mundo infantil será englobado por outro, menos artificial – já que para dizer com Dr. Cláudio, bastante fiel ao “grande mundo lá fora”: o microcosmo do Ateneu.
Este mundo em miniatura funcionará como perfeita reprodução do seu modelo. Será uma cópia da “vida em sociedade” para falar novamente com Dr. Cláudio, e por isto equivalerá, para aqueles meninos, a um primeiro choque com os parâmetros adultos. Em sendo assim, pode-se concluir que este segundo estágio abre-lhes a sensibilidade para um mundo mais verdadeiro, donde o sentido de “descoberta” que parece ter, na verdade, o “encontro” pelo pai do protagonista logo no início do livro.

Para o autor, este microcosmo se constitui como um presumível e fiel espelho do mundo, que se mostra real na medida em que se dissipam os disfarces. Sérgio reproduz na sua narrativa esse processo, em que o mundo figurado acessa o sentido real das coisas e se constitui como mundo real. Essa descoberta, à princípio, é dolorosa, como podemos perceber pela vivência de Sérgio no internato, mas a partir do momento que a personagem assume as rédeas da situação, suas experiências passam a ser mais conscientes. Para Julio Valle “o microcosmo, por mais artificial que seja, nunca se desveste, na obra de sua alegada autoridade reflexiva do grande mundo lá fora”.

A homossexualidade em O Ateneu

Balieiro ( 2009, p.18) faz uma leitura sociológica de O Ateneu e busca “reconstituir aspectos importantes de uma nova ordem sexual heteronormativa que se impunha no Brasil do final do século XIX através da imbricação entre categorias sexualidade , gênero, classe e raça. Pompéia é citado por vários autores por causa desse assunto tão polêmico até nos dias atuais. Balieiro diz que seus contemporâneo tinha na personalidade doentia de Pompéia um homem nervoso, radical e estranho. Conforme notação do autor, em 8 de outubro de 1890, o Estado de São Paulo  noticia de forma enfática a futura participação do cronista como o “esquisito novelista do Ateneu”.

Segundo Balieiro, durante o século XX, biógrafos e críticos teciam a sua imagem sempre relacionada a termos patológicos. Mario de Andrade retoma uma questão discutida anteriormente sobre o fato de Pompéia não ter travado nenhuma relação íntima, bem como não conseguir narrar nenhuma forma de amizade verdadeira sem recair na imoralidade e supõe que o autor algum problema sério, uma tara, um segredo. Em outras biografias mais antigas, como a de Rodrigo Octávio (1978)  até a mais recende de Camil Capaz (2001),
Raul Pompéia aparece como uma criatura estranha; desde as suas características físicas como portador de estrabismo exagerado, passando pelo comportamento sui generis de um recatamento exaustivo – não tenho relacionado amorosamente com nenhuma mulher – até seu nervosismo extremo, sua sensibilidade aguçada que muitas vezes consiste na explicação de seu radicalismo político, seu nacionalismo exaltado e seu florianismo convicto. (p.20)

Alguns autores relacionam o suicídio de Pompéia a esse comportamento. Para Balieiro, havia uma concepção de masculinidade imposta no Brasil no período em que O Ateneu foi escrito. Por questões políticas, Pompéia se desentende com Olavo Bilac e Luis Murat, que passam a criticá-lo e a ofendê-lo em seus artigos, que se defende. As discussões giram em torno da honra.  Um duelo é marcado entre Pompéia e Olavo Bilac e no dia previsto, ambos são orientados a não realizarem o embate, que foi acordado com um aperto de mãos. A polêmica volta à tona e as ofensas continuam, construídas de forma a entender que Pompéia fosse um homem moralmente doente. Mesmo defendendo-se, Pompéia é demitido do cargo de diretor da Biblioteca Nacional e é insultado por Olavo Bilac ao noticiar o fato na Imprensa. Pompéia passa a ser ignorado na imprensa, inclusive no jornal com o qual colaborava. Balieiro destaca: “O cronista e escritor, sentindo- se rejeitado pelas gazetas e humilhado publicamente, mata-se para proteger sua honra. Deixa apenas um bilhete: “À notícia e ao Brasil declaro que sou um homem de honra” (p.109). Balieiro ressalta que, pelas suas obras, Pompéia só recebeu duras críticas em O Ateneu. Os outros trabalhos são bastante elogiados

A obra O Ateneu traz uma narrativa densa sobre a homossexualidade. Logo no início na narração, é descrita a perversão, a corrupção e a imoralidade presente no internato. As relações homoafetivas são tidas pelo diretor do internato como um desvio de comportamento merecedor de punição, como a que realiza ao descobrir o caso amoroso entre Cândido e Emílio. “Tenho a alma triste. Senhores! A imoralidade entrou nesta casa!” (Cap. VII) Aristarco tinha reunido todos para expor o caso e humilhar os envolvidos publicamente, inclusive os cúmplices. E continua com o seu sermão: “Há mulheres no Ateneu, meus senhores!”, ao referir-se à Cândido, que tinha assinado uma carta como Cândida.

Às vezes, a homossexualidade é posta na narrativa de Sérgio de modo subjetivado, tanto pare ele quanto para os meninos. Logo no início da narrativa, Sérgio recebe os conselhos de Rebelo sobre o internato:
Isto é uma multidão; é preciso força de cotovelos para romper. Não sou idiota; vivo só e vejo de longe; mas vejo. Não pode imaginar. Os gênios aqui fazem dois sexos, como se fosse uma escola mista. Os rapazes tímidos, ingênuos, sem sangue, são brandamente impelidos para o sexo da franqueza; são dominados, festejados, pervertidos como as meninas ao desamparo. Quando, em segredo dos pais, pensam que o colégio é o melhor das vidas, com o acolhimento dos mais velhos, entre brejeiro e afetuoso, estão perdidos... Faça-se homem, meu amigo! Comece por não admitir protetores”. (Cap. II)

Esse trecho torna claro como as relações entre os meninos se constituíam. Rodrigues (1979, p.169) expõe o que ele considera de “gestação do homossexualismo adolescente, “revivido” pela memória do narrador” ao abordar a amizade entre Sérgio e Bento Alves:
 “As pétalas começaram a aparecer mais frescas e mais vezes; vieram as flores completas. Um dia abrindo pela manhã a estante numerada do salão do estudo, achei a imprudência de um ramalhete. Santa Rosália de minha parte nunca tivera assim. Que devia fazer uma namorada? Acariciei as flores, muito agradecido, e escondi-as antes que alguém vissem”. (Cap. VI)

Rodrigues nota que após a briga entre Bento Alves e Malheiro, cujo motivo envolvia a Sérgio, este se sensibilizou intimamente, ao saber que seu amigo estava preso:
“Por minha parte, entreguei-me de coração ao desespero das damas romanceiras, montando guarda de suspiros à janela gradeada de um cárcere onde se deixava deter o gentil cavalheiro, para o fim único de propor assunto às trovas e aos trocadores medievos”. (Cap. VI)

A reprovação contra a homossexualidade era nítida no internato, através do controle e da vigilância de Aristarco: “Ah! Mas nada me escapa... tenho cem olhos. Se são capazes iludam-me!” (Cap. VII). Então, os envolvimentos que se dava fugiam dos olhares atentos do diretor e seus funcionários e assim evitavam os mecanismos disciplinares. É o que Sérgio narra sobre Sanches: “Contudo Sanches, como os mal-intencionados, fugia dos lugares concorridos. Gostava de vaguear comigo, à noite antes da ceia, cruzando cem vezes o pátio de pouca luz, cingindo-me nervosamente, estreitamente até levantar-me do chão”. (Cap. III)

No Artigo de Balieiro e Richard Miskolci (ano indefinido, p. 10), intitulado “O drama público de Pompéia: sexualidade e política no Brasil finissecular”, “a vigilância escolar revela-se meio importante para a consolidação da heteronormatividade”. Para os autores, embora a homossexualidade não tivesse como ser (e nem poderia) eliminada, era “relegada às sombras e ao segredo constituindo os limites negativos da desejada heterossexualidade”. Nos moldes dessa concepção, a heterossexualidade carregava fortes traços da masculinidade e da virilidade, que não se constituíam apenas pelo fato do homem se relacionar com mulheres, mas também através de relações de poder.

Considerações Finais

O Romance O Ateneu é uma obra que carrega traços biográficos e compõe-se de um fluxo incessante de sentimentos e sensações, um relato de um narrador sobre a sua própria vivência e que através do personagem Sérgio, traduz as ações e reações e reconstitui o seu passado, que chama de “Crônicas das Saudades”.

No romance, podemos encontrar uma variedade de significações, sejam nos estilos literários e no contexto sócio-cultural da época, seja na sua representatividade que tem para os leitores do mundo contemporâneo. Raul Pompéia expõe as suas impressões, seu modo peculiar  de se comunicar através das palavras, e revela o lado obscuro da sociedade. Traz críticas à sociedade, destituída de valores, e coloca o internato, o microcosmo, como um espelho do mundo real, em que as experiências e os elementos presentes, seja na figura de Aristarco ou nos desfechos das ações, serviam de base para o autor expressar seus ideais.

Considerada a sua obra-prima pela relevância do ponto de vista literário, O Ateneu é objeto de estudo de diversos autores, que o consideram uma das obras mais interessantes da literatura, tendo em vista a sua dimensão estética e realista.

  
Bibliografia:


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POMPEIA, Raul. O Ateneu. São Paulo: Editora Martin Claret, 2000

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RODRIGUES, A Medina (et alli) Antologia da Literatura Brasileira: textos comentados
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