quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

DA AMIZADE, de Marco Tulio Cicero


Da amizade é um diálogo composto por Cícero em 44. O autor coloca em cena três interlocutores: Lélio, Fânio e Cévola. O diálogo acontece tem como principal causa a morte de Cipião Emiliano, amigo inesquecível de Lélio, que enfatiza em seu discurso a importância da amizade na vida das pessoas, as formas pelas quais ela se manifesta e suas peculiaridades.

No início, Lélio justifica sua amizade com Cipião, como o qual estabeleceu uma relação política e privada, vivenciando situações de paz e guerra. Destaca a amizade como a essência de tudo o que há de puro e sem máculas em uma relação, que nasce sem interesse e é natural. Lélio diz que só entre nos bons pode haver amizade, reforçando sua relação com Cipião e colocando-se acima de qualquer julgamento que afronte sua postura e personalidade. Ao referir-se aos homens de bem, exemplifica com adjetivos inerentes, que comportam pessoas cuja fidelidade, integridade, equidade e liberalidade estão intrínsecas. Não possuem cobiça, libertinagem e audácia. Homens assim, que possuem constância, são homens bons, pois seguiram na medida do possível a natureza, o melhor guia para viver bem.

Lélio, ao falar sobre a natureza, destaca sua importância na relação entre as pessoas, pois ela os molda para viver em sociedade, estreitando-se os laços na medida em que há uma aproximação uns com os outros. Então, há uma maior aceitação entre os parentes, já que os laços que os unem são maiores, tendo em vista que se trata de uma ligação criada pela própria natureza. No entanto, nem sempre os laços parentescos são suficientemente firmes para que a amizade esteja viva e subsista em consideração a essa criação natural. Segundo Lélio, a amizade nada mais é que um acordo perfeito de todas as coisas divinas e humanas, acompanhadas de benevolência e afeição, e exceto a sabedoria, nada há nada melhor que a amizade.

A amizade entre as pessoas é extraordinária. “Que haverá de mais doce que poder falar a alguém com falarias a ti mesmo”? “De que nos valeria a felicidade se não tivéssemos quem com ela se alegrasse tanto quanto nós próprios?” (p. 31). É impossível viver bem sem amigos, pois assim como todos os bens apresentam uma vantagem, amizade envolve em si inúmeras utilidades. Pode-se dizer que a amizade é onipresente; esta estabelece uma comunicação contínua, mesmo se um estiver distante do outro. Vale lembrar que estas qualidades são inerentes a uma amizade verdadeira e perfeita, e nem todas as relações a possuem. Defender a amizade, então, é objetivo primordial daquele que a conquista com fidelidade, constância e justiça.

Manter a amizade com uma pessoa nem sempre significa que essa pessoa relaciona-se reciprocamente com aquele que o tem como amigo, e às vezes, nem o conhece. Podemos considerar amigo aquele que nos conquista pela sua relação respeitável na vida pública e privada, próximos ou semelhantes ao ideal de vida que visamos alcançar. Da mesma forma, uma pessoa pode tornar-se objeto de ódio e desprezo pela sua índole, crueldade e ação contrária ao que julgamos ser merecedora de nossa confiança e consideração.

A existência da amizade não se mede e nem se avalia pela necessidade que se tem em possuí-la. A pessoa que conquista e conserva amigos não é aquela de poucas condições, inseguro de si mesmo. Os que procuram conquistar e conservar amigos são justamente aqueles que têm autoconfiança, é ciente do seu valor e capacidade de discernimento. A amizade nasce através das virtudes e não pela necessidade. Os benefícios que se alcançam através dela não devem ser considerados como o principal motivo para a sua existência, tendo em vista que o maior prêmio é o próprio amor que ela desperta.

Se a amizade é um tesouro de valor inestimável, imagine então o quão difícil é conservá-la até o último dia da vida, pois até nas relações os comportamentos modificam-se, haja vista que cada um tem as suas especificidades, e nem sempre compartilha da mesma visão ou interesses. Lélio considera como o pior flagelo da amizade o apego ao dinheiro ou a disputa de cargos e glórias, típicos de sua época. As desavenças podem ser remediáveis ou desastrosas e podem originar de diversas causas. As queixas não somente sucumbem os melhores relacionamentos, como também gera ressentimentos intermináveis. Segundo Lélio, para escapar dessas fatalidades, não é necessário somente a sabedoria, é preciso sorte.

“Eis, pois, a lei da amizade que se deve estabelecer: nada pedir de vergonhoso, nada de vergonhoso conceder” (p. 53). É uma observação honrosa, que suprime qualquer referência a amizade verdadeira medida por tais comportamentos, em que se espera justificar um ato vergonhoso em nome da dedicação ao outro. Não obstante, é um julgamento oportuno para os dias de hoje, pois em nome da amizade cometem ações infames e inadmissíveis ao real sentido que expressa a amizade. “Assim, maus cidadãos não se deve proteger com a escusa da amizade, mas antes deve ser punido com todos os suplícios...” (p. 58).

Quanto à crítica da tese utilitarista da origem da amizade, uns observam que se deve evitar relações numerosas, para que há haja preocupação expressiva. Se o importante para uma vida bem-sucedida é ter tranqüilidade, então não é sábio aquele que se extenua por muitos. Outros afirmam que ao fazer amigos, devemos buscar apoio e proteção, não benevolência e afeição, pois isso é para fracos e inseguros.

A concepção de Lélio sobre o tema é impressionante. Segundo ele, homens de bem experimentam com seus semelhantes, uma simpatia espontânea, fonte natural da amizade. “Entretanto, essa simpatia também se estende a todos os homens. A virtude não é desumana, egoísta ou orgulhosa, ela chega ao ponto de proteger povos inteiros e velar por seus interesses, o que certamente não faria se recusasse a amar os homens em geral” (p. 65).

Os males que circuncidam sobre essa relação tão forte e ao mesmo tempo tão delicada são muitos. A riqueza de muitos poderosos afasta os amigos fiéis. O homem é naturalmente competitivo. Alguns reagem a essa individualidade judiciosamente e, às vezes, não chega a comprometer suas relações sociais. Outros deixam arrebatar-se pelo desdém e arrogância. Por isso, vemos pessoas que ao ter uma ascensão, desprezam os amigos antigos e procuram novos. Isso nada mais é que a sólida insensatez, que na abundância de recursos, meios e influências, enche de coisas materiais e não conserva os amigos, que na verdade são os verdadeiros ornamentos da vida.

Lélio toma por conveniência fixar os limites da amizade e os marcos do amor, porém, discorda das três teorias existentes a respeito: a que devemos amar nossos amigos como amamos a nós mesmos; que é preciso ter para com os nossos amigos a mesma benevolência que eles têm para conosco; que devemos fazer pelos amigos o que fazemos por nós mesmos. “A primeira não corresponde à verdade, pois exige que a atitude que adotamos a nosso respeito determine nossa disposição para com os amigos. Quantas vezes, com efeito, fazemos pelos amigos o que jamais faríamos por nós mesmos! Instar por eles junto a uma pessoa indigna de nós, suplicar ou repreender asperamente outra, investir violentamente contra uma terceira: são coisas não muito convenientes quando se trata de nossos interesses, mas muito convenientes quando se trata dos interesses dos amigos. E sucede frequentemente que os homens de bem se privam ou se deixam privar de boa parte de suas vantagens para que seus amigos delas usufruam em seu lugar. A segunda teoria é a que define a amizade pela reciprocidade de préstimos e intenções. Ora, isso seria reduzir meticulosa e escrupulosamente a amizade ao cálculo de um equilíbrio perfeito entre o dar e o receber. A meu ver, há bem mais largueza e generosidade na amizade verdadeira, que não cuida em minúcia se perdeu mais do que ganhou. Pois não se deve recear perder que ofertou, semear sem colher ou exceder-se em sua diligência. A terceira definição, porém, é a pior de todas ao determinar que cada um faça pelo amigo tudo quanto fizer para si. Muitos há, com efeito, bem pusilânimes e muito desalentado em melhorar sua condição. Não é sinal de amizade pôr-se nas mesmas disposições de ânimo em que estão os amigos: deveríamos, antes, tentar reanimá-los, insuflar-lhes mais entusiasmo e pensamentos cheios de esperança” (p. 72).

A escolha dos amigos não é tão simples, haja vista que devemos escolher aqueles que são firmes, estáveis e constantes. E só é possível julgá-los antes de pô-los à prova, que só pode ser feita mediante a relação de amizade. Então, a amizade se antecipa ao julgamento e suprime a possibilidade da experiência prévia. Lélio também faz referência a volubilidade que há por parte daqueles que traem a amizade pelo dinheiro ou cargos que denotam poder. Por isso, as verdadeiras amizades são raras entre aqueles que se consagram às disputas de cargos públicos.

Sobre a prática da amizade, Lélio afirma que os amigos antigos, assim como os vinhos que resistem ao tempo, devem ser mantidos com mais encanto. Quando as modificações se sucedem negativamente, então devemos cuidar não só de perder uma amizade, mas de não ganhar uma inimizade. E inconvenientes assim são evitados quando temos a precaução para que a amizade não nasça depressa demais e nem se dirija à criaturas indignas. Verdade é que privamos a amizade de seu mais belo ornamento quando deixamos de respeitar os amigos. “Enganam-se perigosamente, pois, aqueles para quem as paixões e os desmandos podem ter livre curso na amizade; foi para ajudar a prática das virtudes que a natureza nos deu a amizade, não para ser companheira dos vícios” (96). Por isso, Lélio adverte que o amor só deve nascer após o exame, não o exame após o amor.

Da amizade deixa-nos um grande ensinamento, que é o cuidado que devemos ter com os bajuladores, que sempre procurar agradar e nunca dizem a verdade, se esta for uma reflexão. Na amizade nada é pior que a adulação, a lisonja, a bajulação. Os inimigos nos prestam um melhor serviço que os amigos que se mostram cheios de doçura: estes nunca falam a verdade, aqueles não medem esforços em publicá-las. O melhor é condenar o vício dos bajuladores, que sempre falam para agradar. No entanto, há quem goste da bajulação. Por isso, não há homem que dê mais ouvidos aos aduladores do que aquele que a si próprio se vangloria com a máxima complacência. Isso não passa de uma virtude imaginária. “Estes se deleitam com a lisonja e, para concordar com suas vontades, pensam que essa vã tagalerice testemunha seu mérito” (p.110). De fato, não há amizade quando um se recusa a escutar a verdade e o outro está disposto a mentir.

É necessário procurar à nossa volta alguém digno de ser amado e capaz de amar, pois as coisas deste mundo são frágeis e passageiras. Por isso, Lélio diz que seu amigo Cipião nunca deixará de viver, pois o amor entre os dois nasceu pela virtude, e esta não morre jamais. Lélio finaliza o assunto ressaltando que só é possível adquirir amigos verdadeiros tendo a virtude como o seu principal atributo, que a sua exceção, nada é superior à amizade.


Considerações Finais

Ler o livro Da amizade foi imensuravelmente gratificante. A partir da leitura, minha compreensão sobre a amizade se expandiu consideravelmente. Qualquer pessoa que ler este livro passará a tratar este assunto com mais discernimento, haja vista a preciosidade de seu conteúdo. É sabido que os amigos são uma dádiva, mas as escolhas e sua existência deve partir da concepção tratada neste livro, pois aborda com perfeição e sutileza todas as situações relacionada à essência da amizade, suas causas e implicações.

Cícero (Marcus Tulius Cícero) nasceu em 3 de janeiro de 106 a. C. em Arpino, no Lácio. Sua família pertencia à alta burguesia municipal e fazia parte da ordem equestre, a segunda depois da ordem senatorial. Seu pai mantinha relações em Roma com grandes personagens do Estado, mas não nutria nenhuma ambição romana e se manteve à margem da vida política. Cícero faleceu em 43 a. C.

BIBLIOGRAFIA:
Cícero, Marco Túlio, Da Amizade. – São Paulo: Martins Fontes, 2001.