terça-feira, 10 de agosto de 2010

As novelas das oito e a família brasileira


“Quando nada mais nos assusta, nos incomoda, quando os nossos olhos já não tem mais a sensibilidade do discernimento e o banal se torna normal, não é o mundo que está perdido, somos nós que nos perdemos no mundo”. (Léo Cruz)

Desde quando a televisão passou a ser o meio de comunicação mais influente na sociedade, as famílias brasileiras dedicam parte de seu tempo para assistir a programas preferidos e no horário nobre, o Ibope mostra que a maioria acompanha, capítulo por capítulo, as novelas da Rede Globo.

Quem nunca assistiu a uma novela? Quem nunca se envolveu com cenas emocionantes? Quem nunca reproduziu algo criado pelas novelas, como uma frase de efeito, um costume ou uma tendência? O que seria da família brasileira sem essas novelas, ou melhor, como seria?

É comum ver nas novelas das oito a degradação do comportamento humano, os desvios escabrosos do mundo moderno em meio à liberdade de expressão. Na televisão, a disputa pela audiência faz das novelas das oito uma exposição licenciosa que agride a família brasileira.

É impressionante como essas novelas tem a capacidade de se superar no quesito destruição familiar. A fidelidade morreu, a traição é comum e excitante pela banalidade dos encontros fortuitos. A mulher é vista como um objeto e o homem, um negócio lucrativo. A leviandade marca os personagens, a maldade dá prazer, a devassidão parece apocalíptica, fria, insensível e desumana.

Usar um tema que gera cidadania, também recurso das tramas, nesse caso, parece pretexto. É o discurso batido de que as novelas retratam a realidade. A família brasileira não é isso. A traição não é de todos, não temos tempo para tramar intrigas e nem destruir os outros, o pobre nem sempre tem o café da manhã à mesa, ao contrário dos pobres da novela. Esses são alguns exemplos de que os fatos que se assemelham ao que vemos nas tramas globais são mera coincidência, não representam a realidade.

Todavia, as novelas fazem acreditar que a realidade é essa mesma, a que está lá, nos capítulos imperdíveis, porque martela nossas crenças, confunde nossos valores, deturpa nossos conceitos, transformando-nos em meros reprodutores de sua filosofia de estilo de vida livre. É a imposição do padrão de comportamento e aculturação da família brasileira. Como conseqüência, está a perda de valores morais e sociais, inclusive pelas gerações futuras.

Nessa cultura do pão e circo, é preferível que a família fique com o entretenimento e não veja assuntos que afetam diretamente as nossas vidas, como é o caso das propostas dos candidatos à presidência no debate da TV Band. Por isso, poucos percebem a sutileza da Globo ao mudar o jogo da Libertadores entre São Paulo e Internacional para o dia do debate. Quem tem interesse pelo analfabetismo político e por quê? Na disputa pela audiência, em que o futebol tem dez vezes mais a preferência do eleitor, manipular é tão fácil quanto tirar um doce de criança.

Minha idéia não é apontar soluções, pode ser que alguns até discordem de mim. Apenas proponho ao telespectador que, além de acompanhar as novelas globais, principalmente as do chamado horário nobre, estude-as também. Analise as mensagens, os conceitos transmitidos pelas personagens, os costumes que acabamos por reproduzir. Então, talvez tenhamos uma melhor compreensão do que é saudável às nossas famílias e até que ponto esse modelo de entretenimento que entra nos lares há décadas tem causado mais danos que simplesmente entreter.