quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Análise do poema Horas mortas, de Alberto de Oliveira



Horas Mortas

Breve momento, após comprido dia
De incômodos, de penas, de cansaço,
Inda o corpo a sentir quebrado e lasso,
Posso a ti me entregar, doce Poesia.

Desta janela aberta, à luz tardia
Do luar em cheio a clarear o espaço,
Vejo-te vir, ouço-te o leve passo
Na transparência azul da noite fria.

Chegas. O ósculo teu me vivifica.
Mas é tão tarde! Rápido flutuas,
Tornando logo à etérea imensidade;

E na mesa em que escrevo, apenas fica
Sobre o papel – rastro das asas tuas,
Um verso, um pensamento, uma saudade.

O poema Horas mortas, de Alberto de Oliveira, exemplifica a chamada Escola Parnasiana. De características marcantes, destaca-se pela linguagem rebuscada, cuidadosa, e valoriza a expressão pela forma, como a regularidade métrica, a utilização de rimas ricas e a descrição, presentes neste soneto.

Percebe-se neste poema a objetividade do autor, que apresenta os fatos sem distorcê-los. Embora o poeta seja o personagem de sua própria construção poética, nota-se a impessoalidade, considerado que não há uma maneira pessoal de ver, sentir e pensar. . A poesia vale por si mesma, não se compromete e justifica-se pela sua beleza, o que o parnasianismo chama de arte pela arte.

Horas mortas revela um estado do poeta, que cansado após um comprido dia, entrega-se a doce poesia. Personificada, ela chega mansamente, no leve passo e na transparência azul da noite fria. Cansado, o poeta sente-se vivificado após o beijo, resultado de sua entrega total à poesia que em breve instante, deixa sobre a mesa o seu rastro, ou seja, um verso, um pensamento, uma saudade.