quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Análise literária do soneto Vida Obscura, de Cruz e Souza


BIOGRAFIA (1861 - 1898)

João da Cruz e Sousa nasceu em Desterro, atual Florianópolis. Filho de escravos alforriados pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa, seria acolhido pelo Marechal e sua esposa como o filho que não tinham. Foi educado na melhor escola secundária da região, mas com a morte dos protetores foi obrigado a largar os estudos e trabalhar.

Sofre uma série de perseguições raciais, culminando com a proibição de assumir o cargo de promotor público em Laguna, por ser negro. Em 1890 vai para o Rio de Janeiro, onde entra em contato com a poesia simbolista francesa e seus admiradores cariocas. Colabora em alguns jornais e, mesmo já bastante conhecido após a publicação de Missal e Broquéis (1893), só consegue arrumar um emprego miserável na Estrada de Ferro Central.

Casa-se com Gavita, também negra, com quem tem quatro filhos, dois dos quais vêm a falecer. Sua mulher enlouquece e passa vários períodos em hospitais psiquiátricos. O poeta contrai tuberculose e vai para a cidade mineira de Sítio se tratar. Morre aos 36 anos de idade, vítima da tuberculose, da pobreza e, principalmente, do racismo e da incompreensão.
Vida Obscura

Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,
ó ser humilde entre os humildes seres.
Embriagado, tonto de prazeres,
o mundo para ti foi negro e duro.

Atravessaste no silêncio escuro
a vida presa a trágicos deveres
e chegaste ao saber de altos saberes
tornando-te mais simples e mais puro.

Ninguém te viu o sentimento inquieto,
magoado, oculto e aterrador, secreto,
que o coração te apunhalou no mundo.

Mas eu que sempre te segui os passos
sei que cruz infernal prendeu-te os braços
e o teu suspiro como foi profundo!

 
Neste soneto, podemos perceber a dor humana sofrida por alguém. Na primeira estrofe, o eu - lírico abre um diálogo como um ser, percebido pelas colocações pronominais. No segundo verso da primeira estrofe, esse ser a quem se refere parece ser Jesus Cristo: “ó ser humilde entre os humildes seres”. O diálogo se dá de modo que a vivência desse ser é colocada em evidência pelas dores sentidas e não sentidas por ninguém (como mostra o primeiro verso), em um mundo sombrio e severo, descrito no último verso dessa estrofe.

Na segunda estrofe, o poeta continuar a falar desse ser com quem dialoga e expõe a sua libertação após sua passagem terrena, como mostra os dois primeiros versos. Essa libertação é percebida nos dois últimos versos, em que o ser atravessa a dor para chegar ao mais alto dos saberes, tornando-se sublime e puro pela sua simplicidade.

Na terceira estrofe, o poeta volta a falar de um sentimento oculto, que incomoda magoa. Aqui, percebe-se a presença da traição, que ao tomar conta do coração, apunhalou o ser em referência, culminando em sua crucificação, como podemos observar na quarta estrofe. Nessa última estrofe, o eu - lírico se solidariza e entende esse sofrimento, passando a segui-lo devido a representação que tem para si.