quarta-feira, 18 de abril de 2012

Relato de um sobrevivente em terra de cego quem tem um olho é rei

"A diferença entre os maus e os bons é que os maus pensam em fazer o mau o tempo todo e os bons não pensam em fazer o bem, apenas fazem". (Leo Cruz) 

O despertador toca as seis horas à minha revelia. Acordo e preparo o café. Uma hora depois, enfrento o trânsito alucinado que mais parece uma selva mortífera, onde humanos enfrentam a si mesmos como feras velozes, máquinas ferozes sob o controle de mãos descontroladas, mentes desvairadas, o ronco sádico do motor e no meio do caminho eu vi a morte, sangrando, luzes brilhantes, homens fardados e logo ouvi a sirene angustiada anunciando a dor, a luta, o luto. A morte veio antes dos salva-vidas. 

Começa o labor. Dezenas de funcionários, alguns vivendo no trabalho, outros morrendo nele, alguns satisfeitos fazendo o que ama, outros amando pelo pouco que faz. Ideais em comuns, desejos opostos, a coletividade prospera, a individualidade impera e enquanto trabalhamos de um jeito fraterno, o chefe só pensa no homem de terno. Volto para casa e me desvio da morte nas ruas. Sol à pino, calor escaldante. 

Ligo a televisão e na saída do áudio não há som algum, ruído nenhum, há sangue. Programas expõem as mazelas humanas, a miséria, o descaso, o caos no ar e homens com o dedo em riste declaram mostrar a verdade. Dominados querem dominar, manipulados querem manipular. Mas não podem mostrar a verdade e iludem o povo cansado, cego, alienado, viciado no sangue alheio que passa na tevê e o povo revê e nunca vê que são mortos-vivos, zumbis humanos, telespectadores de um mundo algoz e o homem de terno um porta-voz, insensível atroz. 

Leio o jornal e vejo o mal. Diante do tribunal, provas viram suspeitas não comprovadas e arquivadas, acusados riem da nossa cara feito hienas perversas, impunidades dispersas e o crime imersa escandalosamente, tenebrosamente, converte em gente que morre em hospitais, na insegurança e o pobres mortais dançam a ode disposta em varais, vítimas fatais da lei que nem sei, mas se é um infeliz sem patrimônio, o martelo que inocenta e o corrupto absolve, dar exemplo resolve e decreta a sorte, ou será má-sorte, quiçá um pandemônio? 

Ouço pregar uma cidade falida, mas todos querem dar sua mordida, minar a ferida, cidade esquecida, sobrevoada por aves de rapina que prometem erradicar a catinga, toda imundície da raiz à superfície, toda sordície. Ledo engano. Através da cortina, em meio à neblina eu vejo um tirano de ares palaciano, indivíduo assíduo e profano. 


Vejo aves de rapina fazendo seus ninhos, publicamente mocinhos e criando monstrinhos que saem às ruas em campanhas iminentes, comprando inocentes. Já é noite e o cansaço me vence e o sono convence. Eis que dorme um sobrevivente igual a muita gente que dignamente planta seu sonho, colhe esperança e mantém aliança com quem é do bem e são fortes, amém.