terça-feira, 2 de outubro de 2012

Análise do conto Nos Olhos do Intruso, de Rubens Figueiredo


O conto “Nos olhos do intruso”, de Rubens Figueiredo, a narrativa surreal apresentada em primeira pessoa, baseia-se numa experiência vivenciada pela personagem, o narrador autodiegético. No conto, a personagem encontra no teatro uma pessoa igual a si, um pouco mais nova. Aos poucos, passa a assumir a identidade do outro numa espécie de amálgama. Ao ser confundido, o narrador toma para si a vida e a memória do outro.

Aos poucos, as atividades que esses desconhecidos atribuíam a mim começaram e me parecer familiares. As pessoas que eles mencionavam chegaram a se tornar íntimas para mim, com seus nomes e suas ambições cotidianas. Tudo ia se incorporando à minha memória. O meu passado se expandia com um novo elenco de pessoas e fatos, ao mesmo tempo em que o meu presente também se ampliava, numa espécie de movimento de conquista. Minha vida abarcava muitas outras vidas e assim eu conseguia me sentir mais vivo do que nunca.
(p.541-542)

Quando o outro morre, se sente ignorado e viaja para a cidade do futuro. Lá, encontra um sósia, um pouco mais velho.

            Medeiros (2007) diz que a construção dessa narrativa nos encaminha ao território do duplo, pois ela se dá de modo que o sujeito não é concebido como uma unidade. Para o autor, “ao abrir mão de uma identidade nuclear, passa a viver o outro, a ser, ao mesmo tempo, vários e nenhum” (MEDEIROS, 2007:28)

            Esse amálgama provoca no leitor a ideia de uma realidade falseada. O narrador encontra seu sósia no teatro, terreno fértil para a ilusão, os sentidos e as metamorfoses.
No final da peça, algumas fileiras à minha frente, aconteceu. Quando as pessoas se levantaram, entrevi, no intervalo das cabeças, um homem parecido com alguém que eu conhecia. Talvez fosse a dança de tantos rostos a meu redor, mas o efeito era o de muitas feições distintas convergindo e se sobrepondo no ar transparente. [...] Uma desconfiança incômoda me obrigou a olhar melhor e então deparei com um sujeito igual a mim mesmo, apenas um pouco mais novo. Sacudido por uma espécie de insulto, experimentei o temor de estar sendo sorrateiramente substituído.
(p.540)

 Para Velásquez (2011, 29), o duplo traz no sujeito um problema em relação “à originalidade, a unicidade e existência”, e faz com que o sujeito passe a hesitar sobre si, fazendo com que o leitor tenha a mesma hesitação.

No conto, a preocupação não é o espaço ou a linearidade do tempo e sim o que nele se encontra. O autor usa uma linguagem correta, elegante, evita as frases longas. O conto é construído no discurso indireto, não se apropria de figuras de linguagem e consegue expressar seus sentimentos numa linguagem mais denotativa e ao mesmo tempo rica em impressões transmitidas da personagem para o leitor, em que o ritmo da narrativa se constrói à medida que as ações se desencadeiam.

A temática principal está na verossimilhança, no encontro do real com o fantástico, em que os ambientes (o teatro, a barbearia) conduzem a personagem ao sobrenatural. Na barbearia, a duplicidade se revela através dos espelhos, que provoca uma crise de identidade, um dilema entre a cópia e o original.

Velásquez (2011, 25) chama a atenção para a literatura fantástica presente no conto de Rubens Figueiredo, pois “contribui com a transgressão dos limites da natureza – limites entre a matéria e o espírito -, que são evocados na literatura fantástica”. Para a autora, tanto o narrador/e ou personagem e o leitor, diante desse elemento literário, hesitam entre o universo fantástico e o limite imposto pela realidade. Isto porque a linguagem construída, que tece o ambiente e as ações que nele acontecem, possibilita ao fantástico e sobrenatural uma visão ambígua, em que “o personagem hesita e o leitor ao se identificar com este também hesita (p. 27)”.

Dentro desse estilo, segundo Velásquez, o ambiente da narrativa, que aparenta ser real, contribui para gerar o incômodo e a desconfiança no leitor, fato que o leva ao encontro com o duplo, ponto principal de sua inquietação.

Podemos perceber que a linguagem da narrativa fantástica constrói uma atmosfera em que a coerência do discurso é rompida, articulando a aparente veracidade dos fatos e criando uma paródia com a lógica racional. Segundo Martinho (2010, 5),

Na linguagem fantástica, persiste um interessante processo de produção de sentidos, embora diferente do jogo literário. No discurso fantástico, a ultrapassagem semântica e estética é, evidentemente, muito mais radical: pretende-se sobrepor o inverossímil sobre a ordem racional, causar inquietações, vacilações e dúvidas para demonstrar que o mundo coerente em que vivemos talvez não seja tão coerente assim.

            Deste modo, o fantástico possibilita uma transformação nos mais variados contextos e questiona os seus limites, sejam eles no plano histórico, social, econômico, político, sexual ou ideológico. Por isso, a autora afirma que a narrativa fantástica é bastante proteiforme, pois mostra a função verdadeira dos valores cultuados pelos sistemas ideológico e faz com que a linguagem corrosiva presente proponha uma fuga do mundo de falsos valores, funcionando como uma máscara que transfigura o real.


BIBLIOGRAFIA

MARTINHO, Cristina Maria Teixeira. A linguagem fantástica: uma experiência de limites. Cadernos do CNLF, vol XIV, No 4. USS, 2010

MEDEIROS, Marco Aurélio Pinheiro. O labirinto dos eus cambiantes: a questão da identidade em “Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato”. UERJ, 2007

MORICONI, Italo (organizador). Os cem melhores contos brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, pag 540 - 543

VELÁSQUEZ, Alexandra Britto da Silva. O duplo na literatura fantástica – análise comparativa entre os contos de Allan Poe, Rubens Figueiredo e Sérgio Sant’Anna segundo Tzevan Todorov em “Introdução à Literatura Fantástica” e Clément Rosset em “O real e seu duplo”. II Colóquio “Vertentes do Fantástico na Literatura”. UNESP, 2011