quinta-feira, 5 de junho de 2008

Dependência Virtual


Eu comparo o vício à internet a uma dependência química, tanto que já existem atendimentos em clínicas que lidam com esse problema. E como é um vício, o paciente pode apresentar até síndrome de abstinência durante o tratamento, assim como as drogas. O perfil de um viciado em internet é o da pessoa que usa a rede para suprir a carência que tem na vida. Parte dessas pessoas, a maioria jovens, não tem expectativa de futuro e acabam se envolvendo com uso descontrolado da internet.

A pessoa não se torna um viciado só porque passa o dia inteiro conectado. Há pessoas que, em casa ou no trabalho, passam o dia online e usam a rede tanto pessoal como profissionalmente, e nem por isso são dependentes. O que determina o vício é o modo como se usa, a finalidade do uso.

Infelizmente, tenho uma amiga que está passando por esse problema. Ela é tão dependente do Orkut e MSN que a qualquer hora vai sofrer uma "overdose virtual" Na verdade, acho que ela já sofreu. Há tempos ela não sai com amigos reais, raramente sai de casa e prioriza os relacionamentos virtuais no Orkut e MSN.

No final do ano passado, ela conversou comigo e disse que pretendia cursar a faculdade e pediu que eu a orientasse sobre um curso bom que tivesse condições de fazer. Dentre os cursos que ela apontou, fiz referência ao serviço social. Ela me perguntou se eu iria ajudá-la durante o curso, nas orientações dos trabalhos, explicações de assunto, etc. Como não é um curso tão complexo, disse sim.

O problema é que já faz quatro meses de curso e ela não tem interesse em nada. É avessa aos assuntos, não lê, não compra um livro sequer, não faz pesquisas e sempre está esperando por mim, não para que a oriente, mas que faça para ela. Na verdade, se continuar assim, eu é que estarei me formando e ela apenas receberá o diploma.

Já conversei várias vezes com ela pedindo que controlasse o uso do Orkut e MSN, q
ue procurasse pesquisar assuntos da área na internet, lesse jornais, que mudasse um pouco a forma como usava a internet. Ela me ouve, assume que só usa o Orkut e MSN, mas não muda. É impressionante como ela fica até duas horas da madrugada conversando com amigos no MSN, pessoas que ela nem conhece na vida real. Assim que ela conecta, o seu MSN já entra automaticamente e a primeira página que abre é o Orkut. Cuidar da casa, alimentação, tudo é feito desinteressadamente. Mal tem amigos que a visita pessoalmente.

Já deixei claro a ela que está se tornando uma viciada e que isso irá comprometer em sua vida pessoal e profissional. Tenho sido meio intolerante com ela, porque é extremamente desgostoso você ver que a única coisa que a pessoa faz na rede é usar o Orkut e MSN. Tenho essa preocupação com ela, tanto que já nos desentendemos algumas vezes. Recentemente, tivemos uma discussão e ela ficou magoada. Veio falar comigo uns três dias depois.
Ela tem 20 anos, morou a vida toda no interior e agora está tendo essa chance na capital. Não gasta um centavo com aluguel, alimentação, faculdade, tudo é pago pelo padrinho dela, que é rico e se dispôs a ajudá-la, embora esteja esperando o retorno e nem imagina o que está acontecendo.

Eu sou o amigo mais próximo dela e já nem sei o que fazer. Minha última cartada será dizer a ela que não vou ajudá-la mais no seu curso, que até posso orientá-la, tirar dúvidas, mas não moverei um dedo no teclado por ela. Ela tinha dito uma vez que iria desistir caso não a ajudasse. Vou dizer que isso não é problema meu, que já tentei ajudá-la a encarar a realidade, ajuda essa que ela sempre recusou.

Já pensei em conversar com o padrinho dela, mas tenho receio porque ele é meio arrogante e conservador, não quero fazê-la voltar para o interior. E aqui, na cidade, sou praticamente o único amigo que se preocupa com ela. Pensava eu que fosse uma fase, que depois acabasse o encanto, mas pelo contrário, sua dependência é tão grande que não consegue passar nem dois dias com os pais dela no interior.

Complicado, não é?